terça-feira, 21 de julho de 2015

Especialista em Clarice Lispector lança olhares sobre "Do teatro que temos ao teatro que queremos", de Danilo Castro

“Eu me expus nessas entrevistas e consegui assim captar a confiança dos meus entrevistados a ponto de eles próprios se exporem. As entrevistas são interessantes porque revelam o inesperado das personalidades entrevistadas. Há muita conversa e não as clássicas perguntas e respostas.” 

Clarice Lispector




















Por Thiago Cavalcante (SP)
Pesquisador da obra de Clarice Lispector

Eu tinha nove ou dez anos quando fui ao teatro pela primeira vez. Excursão escolar. Não queria ir. Mas só descobri essa negação quando o ônibus nos direcionou as portas do teatro. Não me recordo em que bairro. Não lembro nem mesmo o nome da peça. Lembro-me (e bem) que estava tudo escuro quando entramos. O medo e a insegurança me acompanharam: que martírio! Por que tudo apagado? Pra que essa cortina enorme fechada? Mãe? Nem mesmo quando as encenações se desenvolveram eu senti paz na minha pequena e assustada alma. O medo e a insegurança foram meus amigos de banco: estavam comigo, dentro de mim: Emanuel ao contrário.

Felizmente não foi assim com Danilo Castro, ator, jornalista e autor do livro Do teatro que temos ao teatro que queremos. No prefácio que abre a sessão intitulada Do teatro que temos, Danilo evidencia, em primeira pessoa, como o teatro surgiu em sua vida. Ao lembrar-se da primeira vez que viu um espetáculo teatral, com seus sete ou oito anos, Castro, em um estalo súbito, distinguiu que o que via diante de si, atores atuando, destoava completamente da “vida encaixotada” existente na televisão. Era (é) outro universo.

E é acerca deste universo diferente, ampliado em sentidos, que o autor desenvolve os capítulos subsequentes ao seu prefácio memorialístico em poesia e emoção. O pesquisador apresenta-nos um registro cuidadoso acerca do teatro de grupo brasileiro. Seu livro é portador de um testemunho pulsante deste teatro, focalizado, sobretudo, no Ceará, passando por Rio Grande do Norte e São Paulo.
O livro Do teatro que temos ao teatro que queremos, como sugere seu título, possui duas partes. A primeira, Do teatro que temos, diz respeito aos perfis de três grupos de teatro de Fortaleza: Expressões Humanas, Bagaceira de Teatro e Teatro Máquina. A segunda, Ao teatro que queremos, faz registro de três entrevistas: Vanéssia Gomes (CE), Fernando Yamamoto (RN), Sérgio de Carvalho (SP).

Em síntese (e aqui corro o risco do resumo: limitado), Danilo Castro mescla em seu livro dois de seus motes norteadores, o jornalismo e o teatro - creio que este vem primeiro que aquele -, registrando desdobráveis reflexões acerca do teatro (e também acerca do jornalismo). Sinalizo, então, algumas das reflexões que “enfronham” Do teatro que temos ao teatro que queremos:

• Nem todo grupo de teatro faz teatro de grupo (p. 17)
• Fazer teatro questionador é muito difícil para um público que se acostumou com comédia e humor. (p. 34)
• Quem não é de grupo não faz teatro. (p. 76 !)
• Por que em São Paulo eu posso encenar autores de todo o mundo e no Ceará tenho que fazer espetáculo regional? (p. 86) (p. 58)
• Eixo Rio-São Paulo (p. 91)
• Fortaleza (1950 – 1970) uma lacuna na história do seu teatro. (p.32-34)
• Numa montagem de elenco, o espetáculo é o ponto final. No grupo, existe uma perspectiva de reflexão de um trabalho para o outro e os espetáculos são os episódios ao longo dessa trajetória.
• Solaridade: prazer e alegria de estar em cena. (p. 55)
• Por mais que a criação artística tenha que estar completamente isenta do apelo comercial, a forma de vender esse espetáculo está agregada ao comercial. (p. 65)
• Enquanto o virtual e o industrial cada vez mais ocupam o mundo a gente faz uma arte presencial com gente de verdade, muitas vezes pra uma escala minúscula de público. (p. 66)
• O teatro no Brasil não é autossuficiente. Entre os melhores, são pouquíssimos os grupos em que todos os integrantes vivem de teatro no Brasil. (p. 80)
• Em que medida um trabalhador pode praticar e consumir teatro? (p. 91)

O posicionamento narrativo que Danilo escolheu para registar sua pesquisa, o uso da primeira pessoa, permite uma aproximação maior entre os perfis e entrevistas focalizados.Castro se revela em seu texto - ora explicitamente, ora nas entrelinhas – apresentando-nos seu alto comprometimento para com sua pesquisa: há embasamento teórico, prático e esperançoso. O jornalista, à moda de Clarice Lispector (que ao entrevistar respondia juntamente com seu entrevistado), é o rapaz enamorado pelas artes cênicas, o ator que vem à tona (cena), juntamente com as outras “personagens” do livro em questão, para refletir acerca “do teatro que temos” e vislumbrar, em um posicionamento histórico (registro histórico) “o teatro que queremos.”.

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