quinta-feira, 20 de agosto de 2015

E se ele não fosse para Brasília?

Na programação do Festival Cena Contemporânea 2015, "E se elas fossem para Moscou?", transita entre teatro, cinema, realidade e ficção
Foto: Divulgação
Brasília, 20 de agosto de 2015

Irina, Maria e Olga,

Às vezes tento contar as coisas a partir do que elas não foram. É um exercício doloroso trazer as memórias do que não vivi. Daquilo que poderia ter sido. Porque o tempo todo a gente prospecta o “E se” como algo que será sempre melhor que o agora. E se eu não tivesse escolhido morar em Brasília há dois anos, quais caminhos eu teria trilhado? Quem eu seria? Há na minha cabeça uma constante narrativa inventada de mim mesmo. Uma ficção que coexiste com a minha própria verdade.

E se elas fossem para Moscou?” O que iria mudar? Estariam mais felizes? Vocês estão felizes? Vocês são felizes? Será mesmo que Moscou é o pulo no abismo em direção ao novo? Ou o novo é em qualquer lugar, em qualquer tempo? Irina (Julia Bernat), Maria (Stella Rabello) e Olga (Isabel Teixeira), queria pedir desculpas por ter ido embora da festa sem dar um abraço apertado em vocês. É que eu tava sentado longe, com uma amiga, e me bateu uma estranha leveza, uma tranqüilidade tamanha que não me foi obrigatório "fazer sala" ou ser cortês como a gente faz quando chega numa festa.

Foto: Caíque Bouzas
Comida, bebida, risos e água caindo do olho me sacudiram tão forte que me questionei o tempo todo não sobre a relação engendrada entre teatro e cinema que a festinha da Irina me trouxe, mas sobre esse pacto sutil entre a realidade da cena e a realidade da vida. Acho até que o termo “ficção” não nos cabe agora. Mentir não faz parte do nosso ofício de ator. A gente trabalha com a verdade, por mais que ela seja autônoma.

E ontem, no Teatro Funarte, no Festival Cena Contemporânea 2015, durante a comemoração das duas décadas da Irina, eu vi As Três Irmãs, do Tchekhov, conduzirem a verdade como se conduz a vida, mesmo que ela seja uma zona borrada impossível de se delimitar aqui nesta carta. A delicadeza do trabalho de vocês três me emaranhou de uma forma tão intensa, que voltei pra casa com a certeza de que não vi um espetáculo. Na verdade, fui partícipe de uma experiência poética e cênica alheia a mim, mas ao mesmo tempo em comunhão com minha própria vida.


E perdi um pouco a noção do meu espaço de espectador, do espaço de encenação e até mesmo do tempo, da realidade e da virtualidade. Fiquei tecendo conexões com as obras como Cacilda! ou Bacantes, do Teatro Oficina (SP), ou Baldio, do Pavilhão da Magnólia (CE). Mas nada me foi tão uno como o que vocês propõem ao se jogarem em alguma coisa que está entre teatro e cinema sob o olhar da diretora Christiane Jatahy. Não à toa receberam o Premio Shell 2015 pela direção e atriz (Stella Rabelo).

Quero vê-las de novo. Me convidem nos próximos aniversários da Irina – até porque em dois anos tenho medo de ela fazer besteira e sumir. Esse Soleone me pareceu não ser boa companhia. Olha, quem sabe nos próximos anos me deito com vocês como aquele desconhecido que se jogou no chão no fim da festa ontem. Acho que aquele homem era também um pouco de mim. De nós. Sem saber como se comportar nesse plano real-ficcional. Um homem suspenso nessa coisa que vocês inventaram e que tive o prazer de viver também. Talvez eu precise mesmo parar de lembrar do que não vivi. Talvez Brasília seja o meu pulo no abismo, seja a minha Moscou. 

Com carinho,

Danilo.

4 comentários:

Jota Jr disse...

Oi Danilo nos vimos esse espetáculo ano passado em São Paulo, é fantástico!!

Jessiara Menezes disse...

Ótimo espetáculo!
Adorei

Gyl Giffony disse...

doido para ver esse trabalho da Jatahy.

Gyl Giffony disse...

doido para ver esse trabalho da Jatahy.