domingo, 30 de agosto de 2015

Machistas não passarão

Desbunde (DF) é um furacão onde homens desnudos exalam um comportamento ambíguo em meio a um show cênico-musical. Na última apresentação, machistas se esturricaram na plateia, xingaram os atores e foram vaiados pelo público

Foto: Sartoryi

Brasília, 30 de agosto de 2015

Desbundes,

Na última sexta (28/09), corri para chegar a tempo no Teatro Newton Rossi, do Sesc Ceilândia (DF). O motivo: acompanhar mais um ressoado trabalho do Festival Cena Contemporânea 2015 – Desbunde (DF), show cênico-musical dirigido por Juliana Drummond e Abaetê Queiroz. Ao chegar, vejo duas filas imensas: uma dos que tinham ingresso e outra dos que pleiteavam entrar. Mais de mil pessoas estavam dispostas a prestigiar o trabalho de vocês. E praticamente metade voltou pra casa.

Por quê? Já se perguntaram? Vocês não são celebridades. Vocês não fazem nada que já não fizeram antes. Pra mim, o burburinho que chegou é bastante razoável: homens pelados cantariam, dançariam e interpretariam loucamente - desprovidos de pudores. Um bom chamariz, vocês sabem.  Mas não é apenas isso. Com vocês não é apenas uma notícia de título e lead polêmico que se esgota em dois tempos. Há nesse interesse todo por parte do público um misto de homofobia e curiosidade.

Foto: Sartory
Agora imagine se o trabalho de vocês não ultrapassasse a linha da sem-vergonhice, deixando de lado todo o teor político em defesa da liberdade LGBT que vocês trazem. À medida que vamos rindo ainda temerosos com todas aquelas bundas e paus suados, intumescendo-se em público, invadindo nossos pudores, vamos também recebendo doses sistemáticas de água gelada. E a gente acorda: somos homofóbicos. MUITO.

E quanto mais homofóbicos nós formos, mais precisaremos de vocês. Não à toa cerca de 50 pessoas levantaram e foram embora da apresentação. E me vi ali, numa arena da vida real. Onde marmanjos que desde o início do espetáculo bradavam xingamentos a vocês, exalando uma testosterona fake por puro medo e necessidade de autoafirmação do machismo. Aí os meus olhos brilharam. Fui fisgado. Vocês precisam estar nos ambientes mais conservadores para dialogar e até mesmo deixar em estado atônito aqueles que os rejeitam: o Desbunde deve sair da bolha do universo gay.

Foto: Sartoryi
Essa doença chamada machismo é o pai de uma série de opressões. São os machistas - sejam homens ou mulheres, homossexuais ou heterossexuais - que ridicularizam tudo que tange o feminino e a mulher. Homens afeminados ou homens que escolhem um novo gênero no decorrer da vida são alvo dessa violência. E até mesmo os homens heterossexuais e masculinos são bombardeados com uma cobrança por um comportamento de macho, que viola tudo isso em cadeia.

Foi nessa hora que o teatro deixou de se travestir de vida para ser a própria realidade. E me doeu ouvir e ver tudo aquilo, ao mesmo tempo em que os que ficaram na plateia rechaçavam os homofóbicos. Foi, acima de tudo, um acontecimento político - que não se amofinou (como diz minha avó) diante da purpurina que vocês exalavam misturadas ao calor e erotismo. E nesses tempos onde a disputa de valores efervesce e parte da sociedade pede retorno da ditadura militar, contar a história do “desbunde” - movimento histórico de escracho e crítica aos costumes nos anos 1970 e 1980 - se faz mais necessário ainda.

Por fim, conhecem o trabalho do coletivo cearense As Travestidas e de Silvero Pereira sob a pele de sua persona Gisele Almodóvar? Se não conhecem, assistam. Conhecem o trabalho paulista Luis Antônio-Gabriela, da Cia. Mugunzá de Teatro, dirigido por Nelson Baskeville? E obviamente os Dzi Croquettes (furacão do teatro brasileiro de contracultura na década de 1970) são uma referência forte no trabalho de vocês. Dialoguem. Unam forças. Gays, Bis, Trans, Sapas e Héteros adeptos à causa vão fazer uma nova revolução. Vocês são parte dela.

Com respeito e glíter,


Danilo.

Deixo aqui o traller do documentário de Dzi Croquettes (2009), dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez.

9 comentários:

Guilherme Monteiro disse...

Obrigado!

Paulo Lima Firmino disse...

Sem comentários kkkk

Juliana Drummond disse...

Gratidão Danilo.
Presenciamos a vida se tornar arte e a arte se tornar vida naquele Teatro!
Ainda estamos tocados e adrenalizados com toda manifestação intensa e verdadeira do público em relação ao Desbunde. Sem palavras pra descrever...
Gratidão!

Cleide Mendes disse...

Que delícia de se ler. Tão bonito ver que existem mais seres humanos e menos machistas no mundo.

Izabela Arrais disse...

Todos lindos

Um trabalho maravilhoso

Leandro Borba disse...

Eles se deram ao trabalho de tomar banho, escolher uma roupa, sair de casa, pagar ingresso, pegar trânsito, pegar fila, sentar, assistir à um espetáculo - que ao que parece não é do gosto crítico deles - só para tentar ofender artistas?

Ta difícil entender, né?

Gabriela Borelli disse...

Dans, obrigada por compartilhar sua percepção. =]
Delícia de texto! Necessário. O Desbunde é instigante, curioso. Parece, de fato, perturbador.
Esse trabalho - e o debate - precisa mesmo sair dos lugares já postos. Carta-crítica ótima para apoiar esse movimento de expansão e ocupação de novos espaços.
Machistas não passarão!

Andréa Costa disse...

....demais Dan!!

HISTORIAS disse...

E saírem como se fossem os ofendidos