sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Rua 45, a Anfitriã

Fim de Tarde, do Teatro de Caretas (CE) sob a direção de André Carreira (SC), se embrenha ao cotidiano das ruas, numa encenação onde os personagens da vida real entram na trama inventada

Foto: Sol Coêlho


Por Danilo Castro

Tem gente que faz teatro na rua, tem gente que faz teatro com a rua. Uma simples preposição faz toda a diferença em um conceito. O grupo cearense Teatro de Caretas, embebeu-se das ruas do centro de Maracanaú (CE), durante a segunda edição do Festival Nacional de Teatro de Rua do Ceará, ocorrida entre 4 e 6 de junho de 2015.

Sob o alaranjado do céu vespertino, o espetáculo “Final de Tarde” conta a história Wildysllane da Silva Pereira (Vanéssia Gomes), moça simples, negra, analfabeta, moradora do Bairro Jereissati II, na Zona Metropolitana de Fortaleza. Talvez ela tenha recebido esse nome “rebuscado” pela sede de inclusão da mãe, Dalila (Vera Araújo). Afinal, o que é uma singela Maria diante de uma WILDYSLLANE, que esbanja imponência no próprio nome?

E é nessa linha da inclusão, proposta pelo Caretas, que se equilibra a encenação COM a rua e não apenas NA rua. A dramaturgia e direção de André Carreira, do grupo Experiência Subterrânea (SC), costura a trama propondo uma integração efetiva do público, que percorre um trajeto de lirismo cênico, rompendo o cotidiano da urbes.

Foto: Sol Coêlho

Como não se envolver com um casamento que acontece à beira do Frigorífico São Francisco, em meio à vitrine dos galetos giratórios? Como não achar interessante a Dona Silvia, vendedora de cachorro quente, que entrou na história como patroa da Wildysllane? Ou mesmo o público na alameda da avenida principal, que lê em coro a carta de Manuel (Non Sobrinho) dizendo que não voltará mais do Acre.

É um choque na rotina dos transeuntes. É puxavante que aguça a curiosidade e mexe com a noção entre ficção e realidade o tempo todo. Mesmo que não haja pretensão do grupo em enveredar pelo Teatro do Invisível, já que a poesia grita forte através de imagens que rompem qualquer noção do real. Aos poucos, o povo vai se juntando, desconfiado, cruzando os braços e perguntando: “É teatro?”. Depois vão entendendo: “Sim, é teatro!” e vão se envolvendo.

De onde vem o som da marcha matrimonial? De onde vem o fogo que arde na pista? De repente um bordado se agiganta de uma sacada e corre por cima da rua transversal. É um susto ouvir os tiros que matam a travesti Ofélia (Non Sobrinho), filha de Wildysllane, e encontrá-la chapada ao chão, impressa num banner gigante, ensopada de sangue, na porta da loja de eletrodomésticos.

Foto: Sol Coêlho

Ao mesmo tempo que o simbolismo imagético nos leva a outra dimensão da realidade, no estilo de atuação proposto pelo trabalho dos atores, há uma tentativa de tornar espontâneo um diálogo poético, uma dramaturgia escrita pela mão de um e dita pela boca do outro. Dilemas do ofício do ator. Às vezes, recolocar um texto a partir das intenções pessoais e arremates de fala de um ator pode ajudar a deixar a escrita/fala menos distante dele mesmo.

Somos partícipes de tudo isso. E melhor, sem qualquer tipo de constrangimento que muitas obras provocam ao propor interação. As portas da casa estão abertas para sairmos da proteção da sala de espetáculo e sermos recebidos pelo caos da vida cotidiana, da rua, dos carros, dos ambulantes, dos vira-latas, dos transeuntes. Final de Tarde poderia também ter nome mutante, sendo homônimo ao nome das vias em que a trama acontece a cada apresentação. Bem-vindos à Rua 45, a Anfitriã. Caminharemos daqui pra frente COM ela.

Fonte: Teatro de Caretas (26/08/2015).

Um comentário:

Jota Jr disse...

Esse Danilo Castro escreve lindo né não!?! Ghentee