quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre os Ricardos que habitam em nós

Encenado no Cena Contemporânea 2015, Gustavo Gasparini revisita o clássico de Shakespeare, Ricardo III, didatizando a trama robusta numa aula colegial

Foto: Carlos Cabéra

Brasília, 26 de agosto de 2015

Gustavo,

Acredito que a experiência da apreciação de um espetáculo começa antes mesmo do ator pisar em cena, das cortinas se abrirem ou o do terceiro sinal sonoro que indica que o espetáculo já vai começar. Quando compramos o ingresso com o bilheteiro, aguardamos na fila, sentamos, ouvimos os pactos para aquela encenação, de alguma forma, já estamos imergindo no rito teatral.

Tive o prazer de vivenciar seu trabalho ontem (25/08), no Festival Cena Contemporânea 2015. O espetáculo carioca Ricardo III, clássico de William Shakepeare, encenado por você (Gustavo Gasparini) sob a direção de Sergio Módena, me foi um assalto sem tanta surpresa – uma pena. Estranho, né? Mas é que eu fiquei na querença boba de ser dilacerado na medida em que a rixa medieval entre as famílias inglesas de York e Lancaster se desenrolava.

Duas questões - que poderiam ser ínfimas - me tomaram a cena, somando-se ao quebra-cabeças da minha percepção. A primeira delas foi quando a produção solicitou ao público que desligasse os celulares em um tom pouco ameno: “Desliguem os celulares. A luz atrapalha o ator”, sem sequer um “boa noite”, “por gentileza” e um “obrigado”. Mas sua entrada leve, didática e cortês, que repetiu a mesma solicitação, desconstruiu rapidamente essa minha primeira e talvez equivocada impressão.

Espero que não pense que sou um cara doído, mas sou do tipo que se afeta como água se encharcando na esponja. Eu flano quando assisto a um espetáculo e vou submergindo em tudo que me chega como proposta sensorial. Daí me vi no jogo de ser seu aprendiz nessa encenação que remete ao ensino colegial com lousa, birô, professor, régua e pincel. Nós, público, somos presenteados com o gosto da trama que você tão bem nos joga, convocando: Participem!

Mas é aí que a gente cai na rasteira. Há lacunas que permitem a nossa entrada. E nós entramos, afinal, estamos autorizados por você a encenar também. No meio dos risos e gritaria, um riso se afrouxou mais que os outros na poltrona ao meu lado. Na prontidão, seu distanciamento tomou um ar de seriedade: “Quer participar? Pode participar. Fazer graça comigo, não!”. E rapidamente você retornou à pele do ambicioso e arrogante Ricardo III.

Ora. Tomei as dores. Como público, me ofendi. É como se você nos desse a corda mas não nos deixasse puxar de verdade. O riso do homem ao meu lado não foi um riso de deboche. Foi um riso mais largo que você mesmo provocou no seu público. Achei inclusive que dali poderia partir uma proposta incrível de distanciamento em terceira instância: o primeiro plano é o das personas shakesperianas que você tão bem se traveste através de partitura física e vocal; o segundo é o distanciamento codificado para que você possa narrar; e o terceiro seria este onde você, como ator, confundiria-nos entre a rispidez de Ricardo III e do professor que passa sermão no aluno do fundão.

Então fui me percebendo num espaço onde a linha que criei comigo, sobre seu ritmo cênico, caminhou num gráfico crescente até determinado ponto. Depois seguiu reto, horizontalmente, sem novidades. Não fui assaltado como gostaria. Restou-me aguardar a morte sangrenta de Ricardo III, que até me conectou com o titubeio final de “A morte do Cisne”, do John Lennon da Silva, dançarino de hip hop.



Um abraço, querido. Que possamos discutir e aprender. 

Danilo.

Um comentário:

Flávia Cavalcante disse...

Dan, que boas palavras. Sim, me sinto contemplada com elas.