domingo, 4 de outubro de 2015

Das coisas que ainda remoem em mim ou Lacunas de Renato

O jornalista Diego Ponce de Leon, há três anos, pôs à tona a peça inédita de Renato Russo. Agora o objeto é tema de sua pesquisa de mestrado, na UnB

Assemblage de Diego Ponce de Leon para o mestrado em Artes Cênicas,
da Universidade de Brasília. Foto: Diego Ponce de Leon.

Brasília, 3 de fevereiro de 2015

Diego,

Em 19 de novembro de 1999, quando eu tinha 10 anos (menino tímido, mas já louco pra ser ator), uma prima mais velha foi comigo assistir um espetáculo musical no anfiteatro do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza. Daí me deparei com a história do jovem caboclo nordestino chegando a Brasília. Eu fiquei atônito, como quando a gente dá o primeiro beijo ou perde a virgindade. O espetáculo até hoje, acredite, ainda está remoendo em mim. Por que?

A classificação indicativa da obra sem dúvidas não era pra minha idade, mas por algum motivo não me impediram de entrar. Coisas do destino. Que bom. Minha vida a partir dali seria essa jornada que vem desembocando nos 10 últimos anos dedicados ao teatro. Foi uma epifania doida ver os atores cantando, interpretando, banda ao vivo, palavrões, rock'n roll, cena de estupro, suor, sexo, gritos, revólver, drogas, juventude, crítica social.

Ali eu entendi quão grande era o Renato Russo, que tinha o poder fisgar, com um anzol no pescoço, através de uma história repleta de imagens contadas em música. Em dezembro de 2013, quando cheguei a Brasília, saí “da rodoviária vendo as luzes de Natal”, estiradas dos ministérios à esplanada. Eu, jovem, nordestino, negro, encantado com a capital do país: “Meu Deus, mas que cidade linda...”, chegando pra trabalhar nessa estranha e encantadora Brasília.

Veio tudo de uma vez, como um vômito. Meu instinto dramático me conectou com aquele garoto de outrora, que assistia atônito o musical Um Certo Faroeste Caboclo (1997), escrito e dirigido pelo paraense Paulo Faria, numa montagem financiada pela Funarte. Ali eu tive certeza de que era aquilo que eu queria fazer da minha vida: teatro.


Então, numa manhã de segunda-feira, em setembro de 2015, me deparo com sua assemblage*, no nosso exercício de Poéticas em Cena, do mestrado em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB). Em cima de uma cadeira estavam despretensiosamente uma foto-montagem (você e Renato – lado a lado, no mesmo local, com a mesma pose), uma pedra (resto do muro de Berlim) e uma peça de teatro, compondo sua simples imagética onde o conteúdo não cabia na forma.

Definitivamente, seria impossível. "A verdadeira desorganização do desespero", escrita em 1982, é a única peça de Renato Russo. E é inédita. E você a descobriu (ou apresentou-a ao mundo) com o seu faro instintivo de repórter que remonta um fato perdido no tempo e preenche lacunas.

Ninguém sabia que Renato era dramaturgo (ou pelo menos que havia escrito uma peça com tanta maturidade), apesar de todos os indícios em suas composições. E nós, 12 alunos daquela turma de mestrado, apreciando a sua pequena obra, fomos nos embebendo a cada nova frase que se desprendia da sua boca ao nos contextualizar as provocações que te levam a estar hoje no mestrado. Como crianças que ouvem histórias de uma avó, fomos nos maravilhando com aquilo tudo, com a potência que seu mote de pesquisa tem naturalmente.

Sua assemblage, pra mim, foi mais que um objeto estático. Você fez/faz parte dela, como uma cena que só findou-se quando encerramos a discussão. Foi como uma bomba atômica, que cai pequenininha e devasta um pedaço do tempo e do espaço. Me virou do avesso até que consegui te escrever. Ainda mais com as intervenções de Fernando Villar, professor da disciplina, amigo pessoal de Renato e cogitado pelo próprio músico-dramaturgo como o único que poderia de fato montar o espetáculo.

Cena de Um certo Faroeste Caboclo (1997). Foto: Divulgação.

Tudo isso veio à tona em 19 de fevereiro de 2013, com sua matéria no Correio Brasiliense. De lá até aqui, quase 3 anos se passaram. A peça ainda não ganhou vida metamorfoseando-se em cena, mas você tem na mão uma válvula que vai explodir mais uma vez, quando você mergulhar, agora não mais com o olhar do jornalista sobre os fatos, mas do pesquisador acadêmico sobre seu objeto.

Fiquei pensando sobre a necessidade de legitimar Renato como dramaturgo. Será essa a questão? Será esse o “problema”? Será essa a necessidade? Teremos sempre que ter um problema explícito para poder pesquisar? Ou o fato de você ter contado uma notícia nunca antes contada, de extremo interesse público, já é suficiente para os desdobramentos da sua pesquisa? Renato faz parte da história cultural do país, da identidade simbólica de Brasília. Representa uma geração de artistas e de crítica social que mesmo eu, lá no Ceará, ainda criança e sem saber quem era esse artista, fui tocado por suas provocações dramatúrgicas.

Pra mim, isso é suficiente para legitimá-lo. Renato toca com sua escrita. Seja na forma tradicional de uma peça, seja nas composições. Talvez, enveredar nesses espaços vazios de tempo que o músico deixou seja suficiente para plurificar disso uma série de ineditismos sobre a peça e a vida teatral de Renato Russo, que teria inclusive fortes influências do italiano Pirandello ou do russo Viktor Shklovsky, revelando um conhecimento específico em dramaturgia.

Diego, não sabemos como ficam os direitos autorais, como essa trama vai degringolar, mas quero poder presenciar sua pesquisa ganhar corpo. Nós, brasileiros, somos a audiência que te demanda isso. Quero, em especial, presenciar o momento em que as palavras de Renato sairão do papel para se tornarem físicas através de uma composição viva, para além de sua assemblage. Como quando Faroeste Caboclo foi encenado oficialmente pela primeira vez e tive a sorte de poder assistir.

Saudações,

Danilo.


*Assemblage é um termo francês usado para definir colagens com objetos e materiais tridimensionais. A assemblage é baseada no princípio que todo e qualquer material pode ser incorporado a uma obra de arte, criando um novo conjunto sem que esta perca o seu sentido original.


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