quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Porque falar sobre o CU e a Mostra Sesc Cariri de Culturas 2015 se tornou importante

Após apresentação onde nove performers investigaram os ânus uns dos outros durante a Mostra Sesc Cariri 2015, polêmica é criada nas redes sociais descreditando o Sesc e a obra. Então, o velho paradigma vem à tona: existe limite para a arte?

Os Macaquinhos (SP), 2013.

Por Danilo Castro

Nos últimos dois dias, recebi várias mensagens em grupos no WhatsApp falando sobre a performance Os Macaquinhos (SP), criação de Caio, Mavi Veloso e Yang Dallas junto a um coletivo de artistas que se apresentou na 17ª Mostra Sesc Cariri de Culturas, no último dia 16 de novembro, no teatrinho Patativa do Assaré (Juazeiro do Norte-CE). A ação é bem simples: nove pessoas, todas nuas, investigam os ânus umas das outras. Ingênuo? Vulgar? Arcaico? Frágil? Íntimo? Debochado? Pornô? Vazio?


Os questionamentos vão desde “Isso é arte?” até “Como o Sesc financia uma baixaria dessas?”. A Mostra está na rota dos maiores festivais culturais brasileiros e, nas últimas edições, convocou curadores não vinculados ao Sesc para a seleção dos trabalhos que se inscrevem via chamada pública. O Sesc é imparcial diante da seleção, dando autonomia aos curadores, sem qualquer tipo de censura artística. Nada mais democrático e livre. Nas artes, é disso que precisamos.

Qualquer um tem o direito de não gostar de um trabalho artístico, de se retirar de uma sala de apresentação. Porém, desqualificar uma obra e o Sesc a partir de pequenos vídeos e fotos compartilhadas sem contexto no Facebook é, no mínimo, descuidadoso. A obra, baseada no livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribbeiro, foi apresentada em espaço fechado, com entrada permitida somente para maiores de 18 anos (apresentando identidade) e às 23h. A sinopse do trabalho foi divulgada explicando a ação - não foram publicizadas fotos na divulgação pelo Sesc -  e, mesmo assim, houve gente que saiu profanando conservadorismo por aí, se sentindo “agredido” ou fazendo piada. Não quer brincar de ver o cu alheio, não desce pro play.


Isso tudo me lembrou os milhões de medos que temos do cu. Tanto que, de acordo com dados do Instituto Lado a Lado Pela Vida, que encabeça a campanha Novembro Azul, quase 50% dos brasileiros adultos nunca foram ao urologista e, em 2014, 12 mil homens morreram com câncer de próstata em função da descoberta da doença em estágio avançado. Isso me lembrou também o rechaço e tabus (entre homens e mulheres) com o sexo anal. Até a Sandy já confirmou que é possível sentir prazer por trás, minha gente!

É importante frisar que, em geral, a performance art não se trata de um “espetáculo tradicional”, sacro, que evoca o “belo”. São obras que costumam usar signos e ações que muitas vezes colocam os realizadores em situações extremas, desconfortáveis e contestatórias. "Os Macaquinhos" entrou no segmento de perfomance dentre as 166 apresentações da Mostra. O trabalho põe em voga o próprio conceito de arte contemporânea, ao ser legitimado em um festival de cultura. Lembra até o clássico caso do francês Marcel Duchamp, que, em 1917, colocou um mictório para apreciação num museu e foi rechaçado.

ready-made (1917)
Nessa relação entre corpo e semiose, friso aqui o trabalho da francesa Orlan, que, na década de 1990, fez diversas intervenções cirúrgicas na face, sem anestesia, e transmitiu tudo ao vivo em salões de arte, contestando a ditadura da beleza. Até hoje, o suporte para sua arte é o próprio corpo.






















Veja como ela ficou após as cirurgias.


















Cito também o americano Chris Burden, que, na noite de 19 de novembro de 1971, foi baleado no braço esquerdo, por um amigo, para deixar a sua exposição marcada na parede de sangue e violência.

Shoot (1971)

Ou mais recentemente, em 2013, quando a drag queen Barbie Breakout costurou a própria boca para protestar contra a homofobia na Rússia.


Cito tamém o trabalho Corpornô, da Cia. Dita, grupo de dança cearense. Apesar de não se tratar de uma performance, a obra possui imagens de uma plasticidade elogiadíssima no Brasil, trazendo questionamentos sobre limiares entre dança, nudez, erotismo e pornografia.

Espetáculo Corpornô (2013)
Esses são só alguns exemplos interessantes de ações artísticas que fui lembrando agora. Tudo isso é para mostrar que a arte deve ser respeitada na sua diversidade, na sua pluralidade, na sua especificidade. Isso não significa que estamos impedidos de criticar, pelo contrário. Só não podemos fazer isso em comportamento de manada, sem reflexão ou de forma superficial. Até para criticar, é preciso respeitar.

Temos mesmo é que relaxar o esfíncter e deixar de ser tão pudicos. A contestação é da gênese da performance, do artista. Muitas vezes são eles que levam tapas na cara para que lá na frente você possa passar livremente, sem medo de ser o que é. Enquanto a arte não tolher sua liberdade e seus direitos individuais, ela não poderá ser tolhida. Cada indivíduo faz do cu o que bem entende. E essas decisões precisam ser respeitadas - seja na arte, seja no dia-a-dia. Daqui pra frente poderíamos fazer o exercício de olhar para o cu de um jeito menos pejorativo, mais natural, que tal?

23 comentários:

Camila Brandão disse...

Valeu a leitura... Reflexão super pertinente! Sou a favor da arte sem limites mesmo que seja meus limites...

Giselle Norões disse...

Excelente reflexão, Danilo!!

carlene araujo Araujo disse...

Texto impactante.
Reflexão.

Unknown disse...

Arrasou

Unknown disse...

Arrasou

Raphael Riscado disse...

CADA UM FAZ O QUE QUISER COM O CU CARO AMIGO, MOSTRA, ESFOLA, ENFIA O OBJETO QUE BEM ENTENDER, MAIS VIR COM ESSA BALELA DE QUE É INSPIRADA EM OBRA LITERÁRIA PARA OBTER RECURSOS PÚBLICOS, AI A COISA COMPLICA, POIS MEXER COM DINHEIRO PUBLICO PARA FINANCIAR CONTEÚDOS APRECIADO POR PUBLICO ESPECIFICO É OUTAR HISTORIA, NÃO CRITICO A OBRA NEM A ARTE OU OS ENVOLVIDOS, E SIM O SISTEMA DE RECURSOS QUE FOI USADO, POIS SE QUER MOSTRAR O CU, ALUGA UM ESPAÇO TEATRAL COM SUAS PROPIÁS FONTES E ESPEREM SEU PUBLICO, AI SIM SERA ARTE VERDADEIRA E VEREMOS O QUANTO HÁ DE INTERESSANTE NESTE TIPO, AGORA O QUE NÃO VALE É TIRAR DE TATOS QUE LUTAM PELA CATEGORIA A ANOS PARA BENEFICIAR UMA ARTE CONSIDERADA FÚTIL E ISOLADA PELA CLASSE AQUI NO BRASIL.
A E SEM FALAR QUE QUEM QUISER APRENDER SOBRE A FUNCIONALIDADE E CUIDADOS QUE DEVEMOS TER COM O CU, PROCURE UM CENTRO MEDICO PROCTOLÓGICO, POIS OBTERÁ BEM MAIS INFORMAÇÕES EDUCACIONAIS COM PROFISSIONAIS QUALIFICADOS E ESPECIALIZADOS NO ASSUNTO, POIS APRENDER SOBRE CU COM O PROCTOLOGISTA SERA BEM MAIS PRODUTIVO E RESPONSÁVEL DE QUE NO TEATRO.

E NENHUM DAR ARTES OU OBRAS AQUI CITADAS POR SUA PERSONALIDADE TEM CORRELAÇÃO COM O FATO DISCUTIDO SÃO FORTES MAIS INCOMPARÁVEL COM TAL BIZARRICE.

Márcio Holanda disse...

Caro autor, não entendi o setido da palavra "teatrinho" no início do texto. Se puder explicar seria agradável ou o senhor também está sendo preconceituso ao generalizar a atitude de poucos que estavam no local?

Danilo Castro disse...

Oi, Márcio. É porque é um teatrinho mesmo. Você já foi lá em Juazeiro do Norte, já visitou o Teatro do Sesc? É um lugar ótimo, aconchegante, pequeno, que dá pra fazer espetáculos em vários formatos. Foi esse o sentido. Abraços!

Danilo Castro disse...

Raphael, o Sesc não é uma instituição pública. É um sistema que une empresas ligadas ao comércio. Abraços!

Guarim de Lorena Fotografia disse...

Se existe uma pessoa imprescindivel para se pensar a cultura nestes nossos tristes trópicos ele se chama Danilo SESC Castro

Guilherme de Carvalho disse...

Só tem a extensão real do que é arte , com a adequada evolução espiritual e intelectual de cada ser humano, e neste caso, quem não sabe o mínimo de linguagem semiótica , vai achar uma barbária.
Texto impecável! Parabéns!

Anônimo disse...

Vai ter cu mostrado com dinheiro público, sim! E se reclamar, vai ter cu, buceta, pinto, sangue e porra.

Anônimo disse...

Então quer dizer que é fazer qualquer coisa, colocar no palco e chamar de arte. Daqui a pouco vão colocar no palco um adulto estuprando uma criança, e vão usar o pretexto que é arte. Nossa sociedade está cega e corrompida.

Anônimo disse...

Então quer dizer que é fazer qualquer coisa, colocar no palco e chamar de arte. Daqui a pouco vão colocar no palco um adulto estuprando uma criança, e vão usar o pretexto que é arte. Nossa sociedade está cega e corrompida.

Anônimo disse...

A arte é beleza , é tudo aquilo que faz o ser humano sentir algo , seja raiva , nojo , alegria , tristeza e entre mts outras coisas .. Fiz teatro por dez anos e o estudo do limite das artes vai de cada um , ngm foi obrigado a assistir mt menos obrigado a fazer ! Não sei do que se trata a obra ,então n posso dizer mt sobre .
o fato é que nudez sempre será vista de uma forma "tabuzada" .Não entendi bem oque eles quiseram passar ( pq eu n estava la ), mas achei provocante e forte

Anônimo disse...

"quero aparecer nos tabloides como ator, ter minha arte comentada e compartilhada no face... o que podemos fazer pra que isso aconteça? bora mostrar o cu pro povo"

arquitetonica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
arquitetonica disse...

Arte sensacionalista? Que tipo de arte é esta? ... RidiCulo, desnecessário. Cada um faz o que quer com ele! Isso não significa nada. Eu e todas as pessoas com quem comentei o fato fomos totalmente desfavoráveis à este tipo de conteúdo. Não por tabu ou preconceito. Simplesmente pelo fato de dar a impressão e deixar transparecer a intenção do criador de chocar ou provocar o público com imagens e cenas impactantes por elas mesmas.

Anônimo disse...

Violência é diferente de arte! Por favor não misture, ignorância.

Noteecell Eletronica disse...

Temos que aceitar que arte também tem essa função de incomodar, trazer uma resposta negativa, insultar, quebrar essa bolha ou tabu. Arte não é só quando agrada, quando traz beleza, ela tem o poder de revoltar, calar, de fazer ver o lado escuro, ouvir o que ninguém diz. A arte é ela mesma não depende de mim ou de vc, ela é expressão, comunhão, a arte é vida e se na vida vemos de tudo...

Jonny Rios disse...

Os idiotas sem argumento sempre são anônimos, só isso já prova que essa besteirada não é arte e não devia ter recebido dinheiro público. São os boçais anônimos, sempre toscos e a postos para "causar", pois são carentes e incapazes de qualquer feito positivo. Rafael, o ser humano falhou, infelizmente. Que acabe logo esse e comece um novo mundo, de preferência sem humanos. E, por favor, se for xingar e comentar meu post, não fique anônimo, identifique-se para que todos saibam o quão descolado e moderno você é.

Anônimo disse...

Haja xuca....

Schuster Vidote disse...

Vamos lá meus arteiros, bora mandar suas mães pra fazer parte dessa linda peça teatral e convidar os amigos pra assistir!