sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Sobre o tempo e a sem-vergonhice cênica de amor e morte


O grupo brasiliense Teatro Podre quer furar nossos sexos com uma furadeira tecno-escatológica. "Mata! Mata! Mata-me, amor!" é um drama trash-nonsense carregado de amor e morte

Foto: Raoni Vieira

Brasília, 6 de novembro de 2015.

Teatro Podre,

Quem não ama não mata. Conhecem a peça do baiano Cláudio Simões? Amor é um negócio doido, que regurgita por tempo indeterminado, que se perde no meio da massa escura pontilhada de glíter do espaço sideral – eis que já descobri essa doença e estou me curando aos poucos, desamando para não matar ou morrer.

Com o “Mata! Mata! Mata-me, amor!”, encenação dirigida pelo jovem Kael Sturdat, em cartaz no Instituto Cervantes, em Brasília, vi uma zona borrada de um conceito contundente e gaiato, fresco, como a gente diz no Ceará. E vocês são isso, uma confusão superabundante, fuleragem, trash, nonsense, cintilante, brega, ridícula e curiosamente instigante. Que bom!

Essa sem-vergonhice e desprendimento de vocês é o que mais interessa. Vocês pulam no abismo do grotesco e dos tabus cênicos e dramatúrgicos. Tocam num território assumidamente errante, caótico, mas ao mesmo tempo de extremo cuidado, preciosismo e refinamento. Sambam juventude e ousadia na nossa cara. E fazem disso uma gororoba revigorante.



Vocês são aquilo que o teatro precisa. Falam sobre aquilo que nem sempre a gente quer dizer ou fazer ou viver. Porque nós, artistas, somos muito cabeçudos e esquecemos que teatro é estar em risco, é pular do alto de um prédio pra sentir o prazer do vento estapeando o rosto sem se importar com os pedacinhos de carne, sangue e ossos que vão tingir o asfalto.

Mas, falemos do tempo: do cronológico, à priori, que rege a idade de vocês (atores na casa das duas décadas), que nos coloca diante da crueza da realidade, mas do lirismo e exclusividade do efêmero. Olha a maravilha: vocês são tão jovens e, ao mesmo tempo, tão destemidos quanto à transgressão. Ousados, mas não vazios. Bizarros, mas não toscos. Novinhos góticos suaves, mas não imaturos.

O outro tempo que quero versar é relativamente inenarrável, mas pode ser atribuído à agilidade cênica que cobramos de um espetáculo: o famoso “ritmo”. “Mata! Mata! Mata-me, amor!” me chegou pendular, onde eu ia curtindo sadicamente os tapas que eu levava na cara (rindo de mim, de vocês e do teatro) ao mesmo tempo em que o ar me escapava da câmara paulatinamente – esfriando meu coração. Talvez o tempo (o cronológico) dê consistência à dramaturgia Kaeliana, um misto melodramático de Almodóvar e Nelson Rodrigues, mas que talvez precise aprimorar o ritmo e o jogo para o meu heart não ficar gélido.

O drama de Carmem Paredes (Kamala Ramers), cantora underground da Asa Norte nos anos 1990 - que se tornou evangélica, é daqueles que precisam ser revistos com calma para se apreender todos os seus absurdos. O drama de Kael Sturdat, ator-diretor underground da Asa Norte nos anos 2010 - que se tornou um pândego, é daqueles que precisam ser revistos com calma para se apreender todos os seus absurdos.

Perfurem nossos sexos com a furadeira tecno-escatológica de vocês.

Com amor e cannabis,

Danilo.

Serviço

O espetáculo continua em cartaz até 12 de novembro de 2015. Terças, quartas e quintas, sempre 21h. Instituto Cervantes de Brasília. Ingressos: $30 (inteira). Classificação indicativa: 18 anos.

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