domingo, 13 de dezembro de 2015

Parada Poética ou Chá Epifânico



Despretensiosamente, bailarinos/performers poetizaram o cotidiano da parada de ônibus mais famosa da Universidade de Brasília

Brasília, 13 de dezembro de 2015.

















Tainá, Roberto, Jamila e Édi,

Clarice Lispector tem vários contos/crônicas onde um lampejo a atordoa e poetiza o seu cotidiano. É Como se ela saísse da zona crua da vida para habitar uma vibe alucinógena, prazerosa de sua própria consciência – como as que Lewis Carroll injetou pelos pulsos de Alice. Alguns teóricos já versaram sobre a epifania como traço estilístico contundente da escrita clariceana.

E foi assim que me senti ao me deparar com a “Parada Poética” de vocês: lampejado de poesia no meio da vida comum. A ação artística originária da disciplina Poéticas em Cena, ministrada por Fernando Villar na Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), rasgou a banalidade do tempo, do vento, das idas e vindas de quem estava ali, parado ou andando sob o sol e a secura candanga.

Engraçado que um negócio tão simples me deu um sacolejo doido que pareci até criança ludibriada com coisa pouca. Esse “teatro de invasão”, como diz André Carreira sobre seu fazer no Experiência Subterrânea (SC), não foi NA rua, mas COM a rua. Há uma grande diferença entre as preposições, né?

Três performers esperavam numa das principais paradas de ônibus da UnB, durante a manhã da última quarta (09/12). Eles tomavam e serviam chás aos transeuntes – de forma despretensiosa, sem histrionismo cênico. A partir daí um estranhamento já ia tomando conta do olhar dos poucos que acompanhavam aquilo. É teatro? Quem são essas pessoas? Por que estão servindo chá?


A voz de uma radialista (Jamila Gontijo) ao fundo preenchia os espaços quando o barulho dos ônibus e dos carros dava uma trégua. Ela narrava a vida comum, que de tão comum tornou-se extracotidiana. Os bailarinos foram deixando a poesia correr por suas veias, reverberando no corpo movimentos que os levaram a uma incomum dança na parada de ônibus – entre contatos e improvisações.

A noção entre ficção e realidade a partir do ponto de vista do público me instiga. Tanto que, pra mim, foi um pequeno choque ver os bailarinos subindo no ônibus, pagando a passagem e indo embora junto aos outros passageiros, que não sabiam que, naquele instante, haviam se tornado cena diante dos meus olhos. Sim, eles eram ficção. Ou seriam realidade?

Augusto Boal tem uma frase célebre que justifica sua conceitualização acerca do “teatro do invisível”. Para ele, “a ficção é apenas uma das inúmeras formas em que a realidade se manifesta”. Então, talvez pouco importe agora dicotomizar conceitos. Tudo é real e a poesia está em mim, que fabulo a partir do que vejo.  

A Parada Poética de vocês lembrou inclusive o “As veces creo que te vejo” do argentino Mariano Pensotti, que coloca dramaturgos em estações de metrô e projeta as histórias que eles escrevem ao vivo, em telões, com base no que estão vendo dos transeuntes. É a realidade ficcionalizada.



E como sou do tipo que gosta de sugerir, fiquei na querença de ver o trabalho acontecer nas paradas além da UnB. De ver como seria isso na rodoviária do Plano Piloto, na W3, na L2, nos eixinhos, pincelando amor nessa Brasília dura, de concreto.

Fiquei querendo ver Roberto Freitas interagir mais com a dança, ver o corpo dele se confundir com os de Tainá Barreto e Édi Oliveira, que, por algum motivo, emaranharam-se a ponto de eu não conseguir vê-los mais como colegas de UnB, mas como corpos que dançavam amorfos o tempo, o vento, sob o sol e a secura candanga.

Resta saber todo mundo viu isso tudo que eu vi ou se havia alguma substância alucinógena naquele chá. Se for a segunda opção, quero saber a receita pra tomar sempre que a vida estiver me enrijecendo.

Beijos,

Danilo.

Um comentário:

Oliveira de Carvalho disse...

Muito bom ler seu texto, Danilo. Bacana ver como você apreendeu aspectos que pra nós foram importantes no momento de conceber essa ação. Como o teor não histriônico das ações e a exploração do extra-cotidiano. Desde o início fomos conversando no sentido de afinar uma ação que se diluísse no cotidiano daquela espera das pessoas, sem imposição ou sem que a coisa assumisse um caráter muito marcado de apresentação. Optamos pela simplicidade e pelo tempo dilatado das ações e da movimentação, na busca de uma poeticidade que parecesse estar sempre ali. Muito bacana sua recepção e leitura do que fizemos, mas o melhor mesmo foi sua risada no vídeo, bom de ouvir. Abração, Édi.