quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O que Romagaga, eu e você temos em comum?

Foto: Mateus Thierry
Por Danilo Castro

Essa semana, a webcelebridade cearense, Romagaga Guidini, famosa pelos vídeos escandalosos, em um ato performativo, raspou a cabeça, declarando o seu próprio fim. Aos desavisados, o vídeo pode parecer um tanto exagerado. Para quem conhece a trajetória e a transição do menino Romário que brincava de dublar Lady Gaga e se descobriu num novo gênero, sabe que a travesti com 2 milhões de seguidores é daquelas figuras excêntricas, trash, espontâneas e carismáticas da internet. Se antes ela era somente uma figura insana e ridiculamente bem-humorada, com o tempo, ela foi se entendendo também na luta contra a opressão e o preconceito LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Não importa se ela é bizarra, se não é uma drag ou trava politizada, refinada, legitimada pela comunidade. Cansada das ameaças de linchamento e morte que vinha sofrendo nas redes sociais e até mesmo das agressões e xingamentos na rua, ela decidiu parar de fazer os vídeos que fazem tanto sucesso. Transfobia nossa de cada dia, você fez uma mulher livrar-se dos próprios cabelos. Ela alega estar cansada de lutar. Sem perceber, o ato foi o mais simbólico do seu ativismo, despedindo-se dos holofotes, ela continuou lutando. Se foi legítimo ou não, o que nos cabe agora é condenar o machismo, pai das opressões às mulheres cis*, trans, travestis e homossexuais.


Revelada no começo de 2014, após gravar um vídeo declarando seu amor por Preta Gil e tocar fogo sem querer na própria casa, o sucesso da discípula da Lady Gaga só cresceu. Participações em programas de TV, matérias em jornais, shows em diversas boates gays pelo país e fãs famosas como Cláudia Raia e Anitta usam seus bordões mais conhecidos como “Lacrou” e “Colar de Beijos” - que foram parar até nas novelas da Globo.

O que eu tenho a ver com isso?

Para você entender porque me instiguei em escrever isto: no carnaval deste ano, em Fortaleza, saí vestido como mulher, travestido pela primeira vez. E sabe o que me aconteceu? Um homem, com uns 50 anos, grande, me agarrou com força por trás, travando os dois braços. Ele só largou depois que eu dei uma cotovelada nele e gritei grosso "VOCÊ TÁ LOUCO?". Ou seja: ele me viu de mulher e deve ter imaginado: É VIADO, VAI GOSTAR, EU POSSO.

Resolvi sair como mulher não para fazer chacota, nem para ser misógeno*, machista, transfóbico ou homofóbico. Saí como o Danilo de sempre, travestido em homenagem à luta das mulheres negras. Escrevi no meu braço a frase: “Meu corpo, minhas regras” e fui assediado. Olha que contradição. Um amigo me puxou pra longe para não dar briga e saí meio constrangido, com raiva, sem saber o que fazer.

Fiquei péssimo, óbvio, refletindo muito sobre isso. Sobre o que é ser mulher, ser trans, ser gay afeminado. Esses assédios, abusos, ameaças de morte são cotidianos aos LGBT e quanto mais afeminados, mais vulneráveis eles e elas estão. Mesmo eu sendo homem cis*, com 1,85, 83kg, barbado, passei por um assédio simplesmente por estar vestido de mulher. Um negócio que nunca imaginei que eu fosse passar na vida. E senti tudo que as vítimas de assédio dizem: culpa, nojo de mim, me senti fraco por não ter conseguido revidar logo e me soltar.

O que você tem a ver com isso?

No carnaval deste ano, a Central de Atendimento à Mulher (180) registrou um aumento de 221% de procura pelo serviço em relação ao carnaval de 2015. O disque-denúncia recebeu 3.714 relatos de violência. 51,18% (1.901) dos registros em 2016 corresponderam a violência física; 28,43% (1.056) a violência psicológica; 7,51% (279) a cárcere privado; 7,16% (266) a violência moral; 3,34% (124) a violência sexual; 2,29% (85) a violência patrimonial e 0,08% (03) a tráfico de pessoas.

Se você ainda assim acha tudo isso bobagem, é porque não sabe que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais mulheres no mundo. Foram 604 mortes em 6 anos, segundo o relatório de 2015 da ONG Transgender Europe (TGEU). Talvez você não percebeu que Romagaga é só mais um exemplo de um ser humano que precisa resistir a todos esses transtornos simplesmente por ser quem é.

*Misógeno é quem tem ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas.

*Cis é uma pessoa que politicamente mantém um status de privilégio em detrimentos das pessoas trans. Uma pessoa que se sente à vontade com o sexo que nasceu "alinhado" ao gênero. Ser cis não tem relação com a orientação sexual. 

13 comentários:

Denis Penna disse...

Lindo texto! Queria muito que a ignorância fosse curável com textos assim! Quem sabe um dia! :)

Daniela Dunkel disse...

Muito bem dito, Danilo Castro! E essas estatísticas só provam o que acontecem há muito tempo, mas que antes era um ato vergonhoso para as mulheres que faziam as denúncias

Daisy Nogueira disse...

Fiquei triste pela Roma, pois todos os diferentes do padrão imposto por essa sociedade preconceituosa, machista e patriarcal, são excluídos da sociedade, abrindo espaço pra esses "seres" usarem de violência.

Lahisla Vilar disse...

Texto maravilhoso, Danilo! Esse exercício de se colocar no lugar dos outros, TODOS os outros, tem que fazer parte da criação dos nossos filhos.

Gabriela Padilha disse...

Triste é saber que é tão comum, tão rotineiro. Me senti invadida assim uma vez quando estava voltando de uma praça lá em Belém, um cara parou o carro pra perguntar se eu era mãe do Gael e dizer "que mamãe linda hein"!
Me revolta ainda mais ouvir de muitas pessoas que foi elogio, que eu deveria me sentir bem. Não!! Chega de naturalizar abusos! Dos mínimos até os mais graves, não deve m haver nunca naturalização !!!
Valeu dandan, que cada vez mais homens e mulheres estejam despertos.

W.Gabriel disse...

Grande texto, Danilo! Anti-hermético. Parabéns.

Francesco Raphael disse...

Muito bom.

Fernanda Valéria disse...

Lembrei o motivo de muitas de nós ainda termos medo de sair sozinhas

Kadu Posso disse...

Dá licença, tô compartilhando no Face... ;)

Aby Rodrigues disse...

Mto bom Dani! E lamento mto vc ter passado por isso no carnaval...sigamos denunciando!!

Camila Brandão disse...

Em reunião o dia inteiro e só agora conseguir ler seu texto... Não vou repetir q amo jeito e o q escreve mas eu amo mesmo... quero muito conversar com vc e te dar enorme Abraço... bjs

Rafaela Castro disse...

Muito bom Danilo, expressa bastante o assédio sofrido com bastante frequência. Os olhares maldosos, as piadas sujas. Seria maravilhoso que todas as pessoas pudessem ler seus textos, teríamos pessoas mais sensatas. Parabéns pelo seu trabalho, fico muito orgulhosa de você, estou com saudades. Sucesso sempre.

Rafaela Castro disse...

Muito bom Danilo, expressa bastante o assédio sofrido com bastante frequência. Os olhares maldosos, as piadas sujas. Seria maravilhoso que todas as pessoas pudessem ler seus textos, teríamos pessoas mais sensatas. Parabéns pelo seu trabalho, fico muito orgulhosa de você, estou com saudades. Sucesso sempre.