quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Rosa marginal: preta, puta, pobre e trans

Rosa Luz. Foto: Divulgação.
Por Danilo Castro

Do gueto do Gama (DF), cidade-satélite a 37km de Brasília, brotou Rosa Luz, uma jovem de 20 anos que vem gritando aquilo que a gente cala por omissão, por opressão. Com 604 mortes em 6 anos, o Brasil se tornou campeão no assassinato de travestis e transexuais no mundo, segundo pesquisa publicada no final de 2015 pela ONG Transgender Europe (TGEU).

Para não virar dado da transfobia nacional, Rosa resolveu falar da sua luta no melhor estilo "faça você mesmo". Ela grava e edita vídeos direto do seu barraco, posta no YouTube e Facebook suas performances, raps e relatos de vida carregados da luta pela população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Rosa Luz. Foto: Divulgação
Ela sempre foi mulher, mas foram necessários 17 anos para desabrochar e ser por fora quem de fato sempre foi por dentro. Ao passar seu primeiro batom, uma luz acendeu-lhe o peito. E, no contrafluxo da maré, em casa Rosa teve um ambiente cordial. Não foi rejeitada pela família, nem expulsa, como geralmente acontece com as transexuais e travestis.

A irmã mais nova é uma parceira. A mãe tem "orgulho da filha trans". Não é pra menos. Com suas obras, Rosa já foi parar no Cariri (CE), Enearte (RS), Semana Universitária da UnB (DF), TransArte Brasil (SP) e até mesmo no Reino Unido, onde passou 16 dias em silêncio, em performances nas ruas, para visibilizar a morte de trans no Brasil - com direito a manifesto publicado na revista gringa Novelty Magazine, intitulado "A transgender women is not an ALIEN".

Riscada com uma tattoo que liga a garganta ao sexo (mais uma de suas performances), a cartomante "rainha da quebrada" vai abrindo a selva de faca na mão, se jogando nas suas experimentações artísticas, ensinando a gente sobre seu mundo e desfazendo estigmas. Na entrevista a seguir, Rosa fala um pouco da sua jovem e excêntrica trajetória que vem ganhando seguidores nas redes sociais. Não conhece? Chega mais, é tudo nosso!



DANILO: A sua arte é um grito político. Em que momento você começou a se entender como mulher e como artista? 

ROSA: Sempre fui mulher, mas demorei 17 anos pra perceber esse fato, porque nosso amigo Estado falha em conscientizar a população de que gênero é diferente de órgão sexual. E, até perceber isso, sofri desgraçadamente por alguns aninhos (risos). Sobre me entender como artista realmente não sei em que momento foi. Pra ser honesta, me sinto mais uma cartomante do que artista, "se pá" a palavra artista é apenas um recurso pra outras pessoas se conectarem com o que eu faço, já que sempre tive uma vibe criativa.

DANILO: Pode falar das suas referências não só artísticas, mas também de vida? E o porquê delas?

ROSA: Tem muita mina do rap hoje fazendo um som maravilhoso, empoderado, em geral afro-centrado. Sempre ouvi muita mina cantando e a maioria das referências são contemporâneas, manas mesmo, tipo Flora Matos, Divas do Hip Hop, Lurdez da Luz, Xênia França, Tássia Reis, Mc Stéfanie, Issa Paz e por aí vai, apenas minas do corre como eu, que tão aí empoderando e se empoderando. Fora do Hip-Hop tem outras: Maria Clara Araújo, Travesti Reflexiva, as minas do Blogueiras Negras, Transfeminismos e por aí vai, é apenas um rolê de identificação mesmo, sem hierarquias. E lá de fora só escuto mulheres negras.

DANILO: Pode relatar o contexto em casa, da família? Foi tudo de boa quanto a afirmação da sua identidade de gênero?

ROSA: O contexto de casa é maravilhoso, e sou sortuda, porque geralmente a primeira coisa que acontece com uma mulher trans ou travesti que se assume é ser expulsa de casa. Tenho uma relação ótima com minha mãe que vira e mexe diz o tanto que se orgulha da filha transexual, e minha irmã é uma grande amiga, duas divas periféricas. Em relação ao resto da família não ligo muito: se me respeitam acho massa, se não me respeitam que vazem, não procuro validação de ninguém.

DANILO: Preta, puta, pobre e trans. Tudo que a gente deixa à margem, que a gente rejeita. E você tá sempre na vibe de dizer: é tudo nosso. Tudo o quê?

ROSA: Tudo é tudo, e as vezes somos tão oprimidas socialmente que esquecemos que algumas coisas também nos pertence, tô falando de respeito, de direitos, enfim, tudo é tudo e nós fazemos parte do nosso, porque é tudo nosso e essa fala é quase um mantra, é só praticar pra saber do que tô falando (risos), na humildade e no máximo respeito mesmo. 

DANILO: A estética do lixo, da sujeira, do trash, da agressividade ("pow, pow") tá um pouco na performatividade das tuas imagens, nos teus vídeos. Pelo menos essa força toda  que vejo nas tuas obras é uma leitura minha. Pode falar um pouco sobre isso?

ROSA: A única coisa que sei é que as periferias e as comunidades oprimidas têm grande influência no que faço.

DANILO: Um dos seus gritos é pelo empoderamento das trans nas universidades. Qual sua relação com a academia? É formada? Estuda algo? Pretende estudar?

ROSA: Ultimamente tenho vínculo com a UnB [Universidade de Brasília], fui da terceira turma do Curso de Teoria, Crítica e História da Arte. Por um lado me orgulho, porque sou uma mina trans de quebrada, mas por outro não, porque essa universidade me coage constantemente e não me representa com seus discursos conservadores velados. Graças a eles que até hoje sou perseguida pelo Estado, mas enfim, estou lá só pela representatividade mesmo, porque se não fosse por isso já teria vazado. Infelizmente. MAS VAI TER MINA TRANS OCUPANDO ESPAÇOS ACADÊMICOS E ELITISTAS SIM!

DANILO: O risco que aparece no seu pescoço e peito nos vídeos é uma tattoo? Tem alguma motivação especial?

ROSA: Sim, é uma tattoo. Fiz ela há uns dois anos quando fui curadora numa exposição de artes visuais. A exposição era sobre o corpo, e como quem manda no meu corpo sou eu, entrei na galeria pelada, no meu peito tava escrito coisas como “preta, pobre, periférica, trans” e uma mana me marcou com essa linha, que vai do pescoço até o sexo.

DANILO: Como você tem visto a repercussão do seu trabalho nas redes sociais? Você grava e edita tudo sozinha? Têm aparecido convites pra se apresentar ou para eventos por conta dos vídeos?

ROSA: Por um lado tenho me assustado, pois é algo que não imaginava. Por outro fico feliz porque representatividade importa, e não canso de dizer isso, então quanto mais mulheres negras, transexuais e travestis tendo visibilidade e ocupando espaços que nos foram historicamente privados, melhor. Eu mesma que edito e gravo os vídeo, aprendi tudo no rolê “faça você mesmo”, como a maioria das coisas que me envolvo, e vira e mexe rola sim convites para fazer exposições, performances, apresentação musical, etc., o que acho massa demais.

DANILO: Como você avalia o que tem sido desenvolvido de políticas públicas para a população LGBT?

ROSA: Insuficiente. O estado ainda falha em nos proteger, ainda falha em nos garantir direitos básicos e ainda existe sangue da população LGBT nas mãos dos nossos representantes políticos. Não tem nem como defender o país que mais mata travesti e transexual no mundo, né? Mas sei que hoje é melhor do que ontem, com programas como o Transcidadania [Prefeitura de São Paulo] e similares sendo implantados Brasil afora, e espero que amanhã seja melhor que hoje.

DANILO: Tem algo mais que gostaria de dizer que eu não perguntei? 

ROSA: Se ainda não me seguem nas redes sociais, façam isso e fortaleçam meu trampo, é uma luta diária para alguém como eu ocupar outros espaços que fujam do estereótipo da travesti ou transexual “de rua”. Mulheres, tamo junta! É tudo nosso e essa cidade é nossa! 


2 comentários:

Raphaelle Batista disse...

Adorei, Danilo! Não a conhecia, vou procurar os vídeos

Diego Ponce de Leon disse...

Rosa é maravilhosa. Gravamos um curta juntos!