sexta-feira, 24 de junho de 2016

Carta-crítica aos Casoneros (Argentina): A mulher que aborta entristece o homem


Grupo de Casonero de Teatro del Oprimido

Maricá, 24 de junho de 2016

Casoneros,

A cada novo espetáculo que tenho me deparado no Festival Internacional da Utopia, que acontece até 26 de junho, em Maricá, mais eu percebo que a força das questões trazidas estão para além da estética. Discutir a cena como forma pouco tem me interessado aqui. Mais tenho sido fisgado pela força temática que vocês, artistas de teatro do festival, têm trazido nas suas obras. Não poderia ser diferente com o trabalho de vocês: Qué me estás queriendo decir?, Grupo Casonero de Teatro del Oprimido (Argentina), que assistimos hoje no cine-teatro de Maricá.

O espetáculo narra a trama de uma recém-casada moça, que não quer ter filhos agora. Porém, por um descuido com o marido, engravida. Ele quer o filho a todo custo. Ela não se sente preparada e quer abortar. A cena parou e nós, público do teatro-fórum de Augusto Boal, fomos convidados a intervir. Ao meu lado, uma mulher disse: “A mulher que aborta entristece o homem”. Na mesma hora eu perguntei pra ela: E você não se importa com a tristeza da mulher que não quer ter o filho e engravidou?

Enquanto a perspectiva masculina tomar conta do pensamento das mulheres, será necessário pôr o tema em questão que, por mais evidente que seja, ainda é mal interpretado. Abortar será sempre uma decisão difícil. A campanha pela legalização, difundida em vários espaços feministas, não é uma campanha pela banalização da vida, mas pela saúde e direito da mulher sobre o seu corpo. Somos biologicamente diferentes: homens e mulheres. 

A natureza masculina é privilegiada nesse sentido. Não é meu corpo que se transforma ao engravidar, não sou eu que engordo, crio estrias, não é meu peito que cresce e dói, nem eu que fico noites sem dormir, amamentando. O desgaste físico e emocional para uma mulher com uma criança é enorme.  Precisamos respeitar se ela não quiser passar por isso. 

Por que não comentamos sobre os rotineiros casos dos pais que não querem os filhos e simplesmente desaparecem? Um filho não pode ser um fardo. Se o casal errou ao não se prevenir, o filho não pode ser uma punição - porque essa punição será somente para ela, de uma forma absurdamente desproporcional.

Se você, mulher que está lendo essa carta pública, é contra, não aborte. Mas não queira impedir uma outra mulher de decidir sobre seu próprio corpo. Não é uma questão religiosa. Não é uma crueldade. Pode acontecer com qualquer uma. É uma decisão íntima e não coletiva. Aborto é uma questão de autonomia, emancipação e saúde pública. Tanto que o aborto clandestino é 5ª motivo que mais mata mulheres no Brasil (em geral negras e pobres que não podem abortar de forma segura). Legalizar é dar mais segurança eacompanhamento psicológico a essas mulheres.

Portugal, Alemanha, Austrália, Cuba, México, Uruguai, França, Canadá e tantos outros países possuem leis flexíveis conforme não prejudique a saúde e integridade da mulher. No Brasil, ainda é difícil discutir essa questão sem o fervor ideológico, ainda mais diante de um congresso conservador e masculino – que possui projeto de lei para obrigar mulheres a terem o filho inclusive em casos de estupro.

Casoneros, o espetáculo de vocês, serviu para aquela mulher que falou comigo na plateia. E mesmo que tenhamos apenas uma pessoa no mundo que não compreenda essa luta, será nosso papel didatizar o que significa isso tudo. Precisamos discutir o aborto. Empoderar mulheres, sensibilizar homens sobre a pauta. É um caminho árduo, mas não impossível.

850 mil mulheres no Brasil abortam por ano 

A pesquisa “Magnitude do Abortamento Induzido por Faixa Etária e Grandes Regiões”, de 2014, indica que entre 7,5 milhões e 9,3 milhões de mulheres interromperam a gestação no Brasil entre 2004 e 2013. O levantamento se baseia nas internações em consequência de abortos espontâneos e induzidos do Datasus, banco de dados do Sistema Único de Saúde. Calcula-se que, para cada internação por abortamento na rede pública, cerca de quatro clandestinos são feitos.

Cntinuemos na luta pela vida das mulheres!

Danilo.

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