quarta-feira, 22 de junho de 2016

CARTA-CRÍTICA: O príncipe negro que renasce em mim















Maricá (RJ), 22 de junho de 2016

Mônia, Gabriel, Daniele e Patrícia,

Deparar-me com o trabalho de vocês no Festival Internacional da Utopia, que acontece até 26 de junho, em Maricá (RJ), foi me reencontrar comigo, minhas dores, descobertas e luta. O cine-teatro da cidade inaugurou hoje numa evocação à África, aos meus antepassados. Queria poder ter tido uma infância longe do racismo – mas essa utopia ainda não conquistamos.

Queria ter meus 6 ou 7 anos e me deparar com o espetáculo que vocês apresentaram hoje: “Kawagalana – Histórias de um príncipe negro” e, ali, me perceber também um príncipe, ter oportunidade de me fabular num universo de rei. Porém, no meu espectro de moleque que vivenciou o teatro ainda na infância, restaram-me apenas, na 1ª série do ensino fundamental, o Baltazar (rei Mago negro) e, na 3ª, o saci-pererê.














Nosso imaginário é branco. Nossa educação é branca. As tramas que nos ensinam desde a infância são de heróis e heroínas brancos. A gente aprende que o berço do teatro é a Grécia (maior equívoco - o teatro e as artes cênicas desenvolveram-se simultaneamente em várias partes do mundo). E por esse motivo nunca pude ser Jesus Cristo nas paixões da semana santa ou qualquer outro herói consagrado. “Não pode porque você é negro”. O racismo, por privilégio de uma raça/etnia historicamente abastada, está difundido na nossa literatura teatral, no cinema, nas novelas e romances. 

Há uma lacuna gigantesca na visibilidade dos autores negros narrando sobre nossa perspectiva, sobre nossos personagens. Quantos escritores, autores de novela, cineastas, diretores negros nós conhecemos? Quantos príncipes e princesas negros já vimos nas tramas da infância? Porque não existem ou porque não há espaço para que eles apareçam?



Olhei a plateia, cheia de crianças da rede municipal de Maricá. Olhei a cor da pele delas – a mesma da minha. Ali, nós nos tornamos príncipes valentes na trama criada pela professora carioca Daniele Zamorano (também diretora da obra). Ganhei o dom de adivinhador do futuro, enfrentei a Morte e, mesmo sendo escravizado no Brasil, consegui lutar contra nossos colonizadores e me tornei o primeiro príncipe negro do país - obrigado por essa oportunidade, Trupe Amadores S/A. 

A arte não tem cor. Tanto que dos três artistas que encenam negros e negras, apenas Gabriel Leal (Kawagalana) é negro. A diretora e autora, também não é negra, mas mostra profunda sensibilidade com  o tema. Repito: a arte não tem cor. Com ela, podemos ser quem nós quisermos ser. Pena que só aprendi isso depois de adulto. Em nós, negros e negras, há uma necessidade latente de resistência diante de todas essas invisibilidades. 















Por isso a gente se afirma negro, LGBT, mulher, pessoa com deficiência, idoso, jovem, rural, de periferia e tantas outras identidades. Porque são segmentos oprimidos por uma elite que nos rouba o direito de sermos quem somos e nos criminaliza. Ser negro no Brasil é já nascer lutando e o trabalho de vocês evoca essa luta, sensibiliza crianças brancas sobre nossa história, empodera crianças negras que tanto são massacradas pela cor.

Coisas que eu não precisava ter escutado na minha infância:

Você é um neguinho (de um familiar branco adulto, em tom pejorativo);
Você é um neguinho de alma branca (de outro familiar – pardo - adulto);
Seu preto cor de merda (de crianças brancas amigas da família);
Cabelo duro, etc (de amigos da escola brancos).

Reafirmo a necessidade de atenção à Lei 10.639, de 2003, que insere no currículo escolar o estudo da História da África e dos Africanos, apesar de poucas escolas levarem a pauta a sério e ainda endeusarem a Princesa Isabel, Dom Pedro I e II, Cristovão Colombo, etc. Lembrei do trabalho da MC Soffia, rapper infantil que empodera meninas negras nas suas canções. Lembrei também do trabalho do ator e contador de histórias cearense Edivaldo Batista, que apresenta espetáculos infantis a partir de contos africanos.

Kawagalana significa “amor fraterno, amor universal”, como vocês mesmos me disseram. É isso que a obra de vocês emana. AMOR. Hoje cedo, na abertura do festival, João Pedro Stédile, fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), disse que a revolução acontecerá pela Cultura – o trabalho de vocês é uma pequena revolução. 

Aleida Guevara, filha de Che, disse que temos que ser capazes de sentir as dores dos povos no mundo. Quando pudermos sentir essas dores juntos, conseguiremos força para lutar juntos também, lutar uns pelos outros, independentemente da nossa diversidade.

Com amor e fraternidade,

Danilo.

Um comentário:

Trupe Teatral Amadores S/A disse...

Danilo, que retorno mais lindo! Ficamos imensamente felizes pela oportunidade de troca com o público afrodescendente ou não e por podermos fazer uma arte que não sirva só ao capital e ao puro entretenimento. Sua carta foi o primeiro retorno formal que recebemos. Ficamos imensamente gratos e felizes. Muito axé! Um grande abraço!