quinta-feira, 23 de junho de 2016

CARTA-CRÍTICA: teatro indiano Jana Sanskriti e o machismo como uma questão universal

Foto: Divulgação, Festival da Utopia

Maricá, 23 de junho de 2016.


Ontem, a riqueza que o teatro de vocês emanou no cine-teatro de Maricá (RJ) e me encheu de alegria. Pra nós, brasileiros, entender mais sobre sua cultura através do espetáculo, que compôs a programação do Festival Internacional da Utopia, foi mais uma lição em várias instâncias para chegarmos à uma conclusão óbvia: o machismo é uma questão universal, presente desde as indicações do presidente-interino ilegítimo no Brasil, Michel Temer, que não reconhece mulheres na sua equipe ministerial, até o recente estupro de uma jovem carioca por 30 homens.

Uma dos aprendizados de ontem é que pouco conhecemos do teatro indiano porque nossas referências etnocenológicas, infelizmente, ainda são euro-hegemônicas. Há pouco tempo, descobri o Natya Shastra, manual indiano escrito em sânscrito (entre 400 anos a.C/d.C). A obra traz um conjunto de orientações sobre palavra, dramaturgia, signo, cena e performance. 

O manual entende a experiência cênica como algo uno entre artistas, espectadores e elementos da cena, sendo uma referência importante para o hibridismo no teatro contemporâneo. Porém, estudamos somente a Poética de Aristóteles (Grécia, 400 anos a.C) nas faculdades de teatro brasileiras. E vocês, aí na Índia, há 30 anos praticando o método do Teatro do Oprimido, criado pelo pesquisador carioca Augusto Boal (1931-2009).

Outro aprendizado de ontem é que pudemos experienciar, de forma lúdica e contundente, um espetáculo que retrata a vida da mulher indiana antes, durante e depois do casamento. No país, ainda hoje, as mulheres são criadas para as atividades domésticas, proibidas de estudar, são exploradas e violadas sexualmente. 

Quando se tornam jovens, os pais as vendem para se casarem com homens de famílias abastadas, mesmo contra a vontade delas. Elas são, literalmente, produtos que valem dotes de variados preços. Assim, a tradição perdura, massacrando a dignidade e o direito humano de liberdade daquelas jovens.

O espetáculo de vocês é uma denúncia ao mundo, um grito de coragem do coletivo, sendo que vocês são apenas um dos grupos do movimento indiano Jana Sanskriti, que traz a opressão como pauta para a luta e transformação. Mesmo o espetáculo sendo encenado em hindú, a dor das mulheres e a expressividade de seus códigos e partituras físicas nos são uma comunicação sem ruídos. 

Por fim, a plateia é interrogada (em inglês e com tradução simultânea para espanhol e português) num teatro-fórum: o que temos adizer para o pai da jovem? O que faríamos se fôssemos a jovem? Algumas pessoas são convidadas a entrarem na cena e substituírem os personagens e tomarem atitudes de revolução.

Moro com duas amigas em Brasília, capital do Brasil. Duas feministas, que tanto me ensinam sobre meus privilégios por ser homem e me sensibilizam diante de suas pautas. A mim, cabe apenas trabalhar meu machismo e o dos meus pares, levantar e lutar com elas. É isso que o teatro de vocês evoca. É um convite para a ação, para sairmos do comodismo, para entrarmos na cena e lutar.

Estamos com vocês, na utopia do combate ao patriarcalismo na Índia, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.
Força!


Danilo.

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