segunda-feira, 13 de junho de 2016

O amor traduzido em gestos

Foto: Camila de Almeida/O Povo
A rotina silenciosa do casal é entrecortada pelas brincadeiras de Evandro, seguidas pelo sorriso de amiudar os olhos de Nenzinha. Juntos há 29 anos, o aposentado Evandro César Oliveira Lima, 61, e a auxiliar de professora Maria de Lourdes Castro Lima, 56, são surdos e até já viveram relacionamentos com ouvintes, mas encontraram, um no outro, o amor, descrito no gesto de mão que se enrola de encontro ao peito esquerdo.

Para a psicóloga Ana Raquel Holanda, pessoas com deficiências de visão ou surdez tendem a apresentar o quadro ainda na infância e isso faz com que, desde jovens, se relacionem com iguais. Para a terapeuta sexual Zenilce Bruno, as diferenças podem servir para atrair, mas são as semelhanças que fortalecem o relacionamento. “Ter deficiência faz com que você desenvolva outras possibilidades. Se o cônjuge tem as mesmas deficiências isso faz com que o casal se encontre mais. Se a pessoa tem alguma deficiência, o outro, por viver a mesma situação, acaba acolhendo os mesmos programas, tendo uma forma de transmitir o amor parecida”, detalha.

Evandro e Nenzinha guardam as recordações de uma infância compartilhada, ainda na escola para surdos. Ela explica que o amor não surgiu aí. “Ele era boçal e implicante”, relembra. Com sorriso de canto de olho, ele diz que o motivo da implicância podia, sim, já ser admiração.

Lidar com preconceitos foi um desafio para o casal ser enfim um par. De família toda branca e recém-separada, Nenzinha, aos 24, ainda demorou a ceder aos encantos do sedutor e perspicaz Evandro e de seu black power. “Na época, faltava informação. O casamento de uma moça branca com um negro ainda era visto com preconceito. Mas hoje ela diz assim: ‘Eu sou casada com um preto, tenho dois filhos pretos, e até o meu cachorro é preto (o poodle de nome Obama)’”. Quem explica é o filho mais velho David Lima, 28, músico e professor, que fez as vezes de intérprete.

Os filhos são um capítulo a parte na vida deles. David conta das adaptações que a família teve de passar para os dois filhos ouvintes serem criados. “Ela não podia me ouvir chorar, então colocava o berço muito próximo à cama. Se eu mexesse, ela sentia. Muito pequenos nós aprendemos a fazer o sinal pra dizer que estávamos com fome. Quem nasce com pais surdos, desde pequeno, sabe libras”, rememora David.

A surdez, diferente do que os pré-conceitos poderiam determinar, teve influência bastante positiva na vida dos rebentos. Foi o silêncio da casa que fez David se atentar e se encantar com qualquer som, desde o farfalhar das folhas ao tilintar dos talheres. Hoje, ele é músico e professor de uma escola bilíngue de português e libras. O filho mais novo, Danilo Castro, é jornalista e ator, e quem o vê conversar com os pais sabe de onde vem a expressão corporal requintada que ele leva aos palcos.

Se o amor, na casa colorida do Monte Castelo, não pode ser expresso em palavras, ele dá um jeito de se pôr, literalmente, nos gestos. Evandro, para quem a mulher é exemplo de afeto e dedicação à família, não se embaraça em puxar Nenzinha para um abraço apertado e um passo de dança, mesmo com o ralhar dela, envergonhada com as visitas. E ela, sentada no mesmo banco em que os dois paqueraram pela primeira vez, lhe lança um olhar de quem sabe que valeram a pena as três últimas décadas. (Domitila Andrade)

Fonte: Jornal O Povo (12 de junho de 2016)

5 comentários:

Raphaelle Batista disse...

Teus pais são um casal inspirador, Danilo!

Aline Savi disse...

Que história linda, Danilo. Pensava sobre, quando conheci teus pais. Acho que o amor de teus pais floresce em ti, sempre: um guri lindo, sensível e forte. Beijos as vcs!

Déborah Yone disse...

Um texto lindo, que transmite um pouco da realidade, que vai bem além do escrito!

Joana Santos Pereira disse...

Dandan eu sou testemunha da expressão desse amor de vocês (fico querendo saber o mínimo que for pra mim comunicar em libras com eles) mas, a sua mãe consegue e eu interpreto o "ciuminho" que ela sente ao expressar que te roubei dela. Vamos manter este jeitinho meigo e acolhedor quando ela me encontra como forma de agradecimento à nossa amizade. Te amo nego lindo. E parabéns pelo amor de seus pais.

Savio Mota disse...

Ah, que delícia para os olhos e o coração ver a história desse casal contada para mais gente!