segunda-feira, 11 de julho de 2016

Pré-candidato do PSol, Ari Areia grita contra meritocracia das genitálias em seu espetáculo

Foto: Divulgação

Brasília, 11 de julho de 2016

Ari,

Em pequeno, na Igreja Senhor do Bonfim, em Fortaleza, eu ficava olhando, impressionado, pra imagem gigante do homem morto perfurado pelas mãos e pés, ferido e ensanguentado no altar da igreja. Imagem cruel estampada diariamente à nossa cara. De tanto vermos o homem crucificado, a imagem naturalizou-se. Não é absurdo que escolas, casas, repartições exibam o corpo morto na cruz.

Não entendo como o seu sangue escorrendo sobre a imagem do cadáver na cruz pode ser uma ofensa ao cristianismo vinda de pessoas que sequer se deram ao trabalho de assistir sua obra, de procurar entender do que se trata. Ari, seu espetáculo “Histórias Compartilhadas – Ou dos corpos que não se bastam” é um belo documentário cênico sobre histórias de homens trans, que derramam sangue todos os dias simplesmente por serem quem são.

Sangue em cena não é novidade no teatro brasileiro. José Celso Martinez e o Teatro Oficina, na remontagem de Pra Dar um Fim no Juízo de Deus (2015), do francês Antonin Artaud (1896-1948), extrai sangue de um dos atores e o derrama sobre outro ator, numa proposta de reconstrução da anatomia humana. Dá pra julgar a obra apenas por esta descrição?

Mas que bobagem essa polêmica criada em cima do seu trabalho. Mostra quão imaturos são o Ministério Público do Ceará, a Ordem dos Advogados do Brasil (CE) e a Assembleia Legislativa do Ceará diante de uma obra de arte. Como uma foto e um relato no Facebook podem gerar tamanha ignorância a ponto de você receber notificações desses órgãos e notas de repúdio pelo seu espetáculo?

Eu fico pensando o quanto essas instâncias induzem os fascistas e fanáticos religiosos que te ameaçaram de morte por conta do seu trabalho, legitimado pela relevância crítica, artística e estética em nota pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Tais instâncias, que deveriam lutar pelo povo, fomentam o discurso contra a liberdade de expressão. 

Após a estreia do espetáculo, a amiga de Jair Bolsonaro, deputada pelo Ceará, Silvana Oliveira (PMDB), conhecida pelas declarações homofóbicas e racistas (tanto que o Facebook removeu do ar a página dela), propõe projeto de lei que autoriza PM a interromper eventos "no ato". Indução institucionalizada à censura artística e à violência. 

Em maio, ela e sua turma retiraram trechos sobre diversidade combate à discriminação contra homossexuais em escolas da rede estadual do Plano Estadual de Educação do Ceará. Basta ouvir o discurso inflamado que ela fez à Rádio Universitária FM, durante entrevista com você, Ari.

Certamente, essas pessoas não te conhecem, nada sabem da profundidade da sua pesquisa e da sensibilidade que você tem com o outro. Em especial os homens trans (aqueles que nasceram com vagina, mas que no decorrer da vida perceberam-se como homens e afirmaram suas identidades).

A sua obra e a tal cena polêmica, interpretada de forma cega e pueril por uma carrada de gente conservadora que não te assistiu, é uma alegoria da dor dessas pessoas que, no decorrer da vida, transitam entre gêneros. O seu espetáculo, dirigido por Eduardo Bruno, é por si um ato político. Um basta à meritocracia das genitálias. Nessa vida, eu digo o que eu sou. Meu corpo, minhas regras. É apenas isso.

Ali, no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, eu fiquei com a cabeça fervilhando. Você conseguiu acontecer com o teatro bem além da nossa redoma artística. Você envolveu setores da sociedade e tem envolvido mais pessoas diante das liberdades individuais, da diversidade de gênero, de orientação sexual. Não estamos descolados do mundo. Por isso mesmo, saiba que você me representa na sua pré-candidatura à vereador pelo PSol.

E, se o Ministério Público te intimou a responder: “Que se quer dizer com a peça?”, eu digo que seu trabalho é sobre amor e compaixão. Seu sangue tem poder. É também derramado por nós, LGBTs. Cito 1º Coríntios, capítulo 12, versículos 25 e 26, da Bíblia Sagrada, “a fim de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele”.

Abreijos (como diz o pesquisador Fernando Villar) trans pra você.

Danilo.

Um comentário:

Ari Areia disse...

Muito emocionado com as tuas palavras, Danilo. Obrigado por escrever