quarta-feira, 24 de agosto de 2016

La poética de la violación ou estuprador emancipado

Foto: Jose Miguel Carrasco

Brasília, 24 de agosto de 2016.

Ayelén, Carla Di Grazia, Josefina e Carla Rímola,

Esta carta é, antes de tudo, um pedido de desculpas a duas garotas que vou intituladas por N. e A. O desejo de fazer isso me surgiu ontem, após assistir vocês com o La Wagner, na abertura do 17º Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília. A obra que vocês criaram é um desabafo social poetizado nos seus corpos sob as vestes das composições do alemão Richard Wagner (1813-1883) e direção do jovem argentino Pablo Rotemberg.

A força da cena portenha me interessa por ser bruta. E da brutalidade surge a poesia. Desnudas, a dança-teatro de vocês dói nas suas carnes, enquanto arde em nós, que assistimos à poética do estupro, coreografada a partir de referências da violação sexual. Como será para um estuprador assisti-las? Como será para uma vítima assisti-las?

Vocês geram constrangimento pelo desnudamento do corpo nu, não pelo nu em si. Não ficamos somente diante de uma estética de mulheres à mostra, erotizadas. Ficamos diante de corpos que se abrem para nós. Em pouco tempo, estar nu se perde no tempo, não impressiona mais. Porque o que os corpos exaustos/agredidos de vocês nos falam é mais importante. Me lembrou as provocações entre erotismo e pornografia propostas pela Cia. Dita, de Fortaleza (CE), enquanto os jogos com a violência real podem ser relacionados com o grupo Cena 11 Cia. de Dança, de Florianópolis (SC).



Dados

Em agosto de 2016, comemoramos uma década da Lei Maria da Penha (11.340/2006), criada no intuito de punir com mais rigor e erradicar a violência contra a mulher. O aniversário dessa lei foi comemorado ontem, com vocês quatro. Ainda assim, os dados do Disque 180 mostram que os casos de assédios, estupros e outras agressões ainda é crescente.

De acordo com o Mapa da Violência Contra a Mulher 2015, entre 1980 e 2013, num ritmo crescente ao longo do tempo, tanto em número quanto em taxas, morreu um total de 106.093 mulheres, vítimas de homicídio. Efetivamente, o número de vítimas passou de 1.353 mulheres em 1980, para 4.762 em 2013, um aumento de 252%. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.

Na publicação Estupro no Brasil (2014), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que, por ano, no mínimo 527 mil pessoas são estupradas no Brasil. Desses casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. 89% das vítimas são do sexo feminino, sendo que as crianças e adolescentes representam mais de 70% das vítimas. Os agressores, não são apenas desconhecidos, mas também maridos, namorados, pais, patrões e amigos. De acordo com o 9º Anuário da Segurança Pública, no Brasil (2015), 90% das mulheres têm medo se sofrer violência sexual. O Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos.

Espetáculo La Wagner. Divulgação.


Retrocesso

O trabalho de vocês se faz necessário porque o machismo é um problema universal. No Brasil, amanhã (25/08), por conta de um congresso repleto de homens conservadores, assistiremos à saída ilegítima da presidenta Dilma Rousseff, que tem forte atuação em defesa das mulheres, . O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), é autor do Projeto de Lei 50.6913, que dificulta o aborto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em caso de estupro. O projeto é apoiado pela maioria da congresso, bem como todas as pautas que retrocedem as liberdades e direitos individuais, a julgar pelo Estatuto da Família (PL 6583), que define legalmente como família apenas casais heterossexuais. A situação por aqui está difícil, por isso vocês são necessárias aqui no Cena.


Espetáculo La Wagner. Dilvulgação.

Pedido de desculpas

Mas porque essa carta é um pedido de desculpas? Na minha adolescência, namorei com N. Porém, antes de namorarmos, segurei-a à força na sala de aula e tentei beijá-la, enquanto ela se esquivava. Tempo depois, no início da faculdade, fiz o mesmo com A., durante uma festa. O contato com diversas mulheres feministas e o reconhecimento da minha homossexualidade, aos poucos, me tornaram um homem sensível à pauta de gênero, emancipado – ainda que isso não mude os privilégios que tenho por ser homem numa sociedade sexista. Caso contrário, provavelmente estaria eu reproduzindo todos os braços do machismo.

A cultura do estupro é algo naturalmente ensinado nas rodas de machos heterossexuais - reproduzido também entre homens gays. Em festas, na escola, nos bares, na universidade, a todo momento o culto à força e à dominação sobre a mulher se torna um bem comum entre os homens. Até me entender como um violador dos direitos de uma mulher levou tempo. Há homens que passam uma vida inteira com esses tipos de comportamentos, que chegam à violência sexual e moral, onde o estupro é naturalizado como instrumento de poder.

Ayelén, Carlas e Josefina, estou encaminhando esta carta também para N. e A. Obrigado pela que reflexão que vocês trouxeram ao nosso festival. Reconheço meu lugar de fala, me envergonho de quem fui nesses momentos em que agi guiado pela lógica opressora dos homens. Estou na luta com vocês.


Com respeito,

Danilo.

5 comentários:

Fernando Martins disse...

Bonito Dan. Honesto. Complexo. Perturbador. Eu não arrisquei elaborar nada sobre. Como diria a Pina Baush "se fosse pra falar não dançava". Você fez bonito. Delicado e bonito.

Ayelén Clavin disse...

Muchas gracias Danilo! Mañana leeré tu artículo con gusto. Qué bueno que hayas visto la obra, y también que haya provocado la reflexión y las ganas de escribir. Un saludo!

Catarina Accioly disse...

Que bonito Danilo! O mais bacana é que você consegue alinhavar os diversos elos que o trabalho estabelece com o hoje social e político do nosso país (e do mundo). A obra artística que instiga e perturba se faz necessária em tempos sombrios como esses. Bravo companheiro!!!

Pablo Rotemberg disse...

Muito obrigado Danilo!!!!!

Cristiane Damacena disse...

Caramba, Danilo! Que texto!