quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Arte enquanto identidade (Diário do Nordeste)



Para o ator Danilo Castro, seu fazer artístico, inspirado em memórias da infância à fase adulta, é totalmente atravessado pela experiência de ser negro. Ele conta que soava muito opressor, escutar frases como “Você é negro, mas seu cabelo é bom” e “Você é negro, mas seus traços são bonitos”, sobretudo quando ele era criança e adolescente. “Então, a partir dos 20 e poucos anos, isso começou a entrar no meu trabalho como ator. 

Dentro do (grupo) Achados e Perdidos, na ‘Obra Cênica #1’, eu uso farinha para me ‘branquear’ em cena”, detalha Danilo. No último mês de julho, em Brasília (DF),ondemorahoje,o ator cearense e a designer Letícia Maria realizaram a intervenção urbana “DeuséNegra”. Segundo o texto de apresentação da intervenção, feita com cartazes lambe-lambe, colados ao redor da Catedral da capital federal, a ideia era contestar “o ideal de soberania racial e de gênero atribuído a Deus no cristianismo”.

Umapassagembíblica do livro da Gênesis (9:1-29) é posta em questão: no caso, a mesma que colonizadores brancos eeuropeus usaram para “legitimar” a escravidão de povos negros africanos. Em fase de elaboração, o ator Danilo Castro trabalha agora na escrita da peça teatral “Príncipe Norueguês”. “Será baseado num namoro que tive com um cara, e que me falava várias frases racistas. Quero pesquisar, entrando na vida desse cara e da minha, marcada pela discriminação racial”, adianta.

Corpo Partindo da ideia de que uma das potências artísticas da negritude está na presença física do próprio corpo dos artistas em questão, a atriz Vanéssia Gomes reflete que o orgulho negro encontra caminhos sutis, também, nofazer artístico. “No caso do grupo em que eu trabalho, do Teatro de Caretas, a gente tem escolhas muito específicas e culturais. E eu, enquanto integrante do grupo,ajudoaelaboraressasescolhas. Isso se dá pela dramaturgia que escolhemos, ou pelo entendimento da nossa ancestralidade (o legado de antepassados). Esta, quando é observada, traz a força do tempo”, reflete a atriz.

Ancestralidade 

Além do trabalho como atriz, Vanéssia hoje é articuladora dearteeculturadaUniversidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Direcionando o olhar para a pesquisa da africanidade, elas edeclara em constante reflexão sobre essa ancestralidade. “E isso acaba atravessando meu olhar (também como artista)”, pontua ela. Enquanto realizava a intervenção “Você não é negro”, colando cartazes pelas ruas de Maric (RJ), o ator Danilo Castro carregava uma de suas referências ancestrais. Ele pôs, na cabeça, um turbante, em homenagem a sua vó paterna, negra, que costumava usar a vestimenta e por isso já fora taxadade “macumbeira”. 

Cursando o mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (Unb), ele diz que é o único negro de uma turma de 14 alunos do curso. “Estudei em bons colégios, em universidade pública.Tive ‘privilégios’ que normalmente negros que têm a pele mais escura que a minha não têm. Sou filho de uma mãe branca, com pai negro. Ele usava um black power.Não tinha como eu não me reconhecer como negro”, conta Danilo. (FG)

Fonte: Caderno 3 - Diário do Nordeste

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