domingo, 27 de novembro de 2016

Carta-crítica ao espetáculo Fio a Fio

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues e, Fio a Fio. Foto:  Diego Bresani.

Brasília, 26 Nov 2016.

Édi Oliveira e Giselle Rodrigues,

Eu me chamo Janaína e, a convite de meu amigo e crítico Danilo Castro, me arrisco a escrever minha primeira crítica em Dança. Escolhi o formato de carta-crítica por acreditar nessa genuína proposta em que o afeto passa a ser o ponto 1 de partida para uma crítica em arte. Como uma carta, nada mais apropriado do que enfatizar meu particular prévio respeito pelo trabalho e história da dança em Brasília que vocês representam.

Ontem, ao assistir o espetáculo FIO A FIO no Prêmio Sesc do Teatro Candango, via suscitar em mim sensações e imagens atreladas de memórias (talvez estas memórias mais inventadas do que de fato vividas, mas nem por isso menos reais) de um envelhecimento presente. Os dois corpos mostrados entre o ato de vestir-se e despir-se, junto aos encontros que permitiam nascer danças sutis alcançou-me com extrema sensibilidade.

Perguntei-me, por algumas vezes, sobre as escolhas das repetições no espaço, entre as ações de sentar o outro à cadeira e deitar-se ao chão, que esboçavam uma transformação do movimento que, a meu ver, não chegou a acontecer tal qual a expectativa que por ora me havia gerado. Nessa carta, então, aproveito para voltar a pergunta a vocês: havia, de fato, a escolha em permanecer em uma dinâmica linear da repetição? Reforço que minha pergunta se faz numa tentativa de compartilhar das impressões de uma jovem coreógrafa cujo trabalho de dois coreógrafos que compõem minha lista de referências me fez repensar questões
sobre tempo e espaço.

Ainda, me destino particularmente à Giselle em relação a sua presença neste específico trabalho que, em contraponto à presença de Édi, me dava a impressão de um leve apagamento do estado de presença feminino. Digo isto por reconhecer a potência de seus trabalhos e, claro, levando em consideração que os signos e símbolos da dança sempre produzem textos “a partir de”. 


Nesta ocasião, os contextos culturais e sociais não me permitem ignorar que a presença de um corpo feminino e um corpo masculino em cena me levarão diretamente a diversas questões de gênero. Assim, ao me deparar com a mulher sempre sendo carregada, ou lançada aos pés, ou com a fala cortada, mais esquecida ou, talvez, “acuada”, me leva a questionar os estados de presença propostos durante o espetáculo.

Para finalizar, deixo mais uma vez minha admiração pelos profissionais e espero ter sido clara nesse desafio que é a escrita crítica no seu sentido de “fazer pensar”, FIO A FIO ao invés do senso comum atribuído à palavra crítica, associando-a a “achar problemas ou julgar”. Ainda, aproveito para agradecer ao Danilo pela oportunidade de me despertar novas maneiras de atuar artisticamente, no pensar e fazer que é a Dança.

Com respeito e carinho,

Janaína Moraes.

CARTA-CRÍTICA 

As cartas-críticas são uma proposta de crítica defendida pelo artista e jornalista Danilo Castro, em pesquisa atualmente em desenvolvimento no Mestrado em Artes Cênicas do Programa de Pós-Graduação da Universidade de Brasília/UnB.

8 comentários:

Édi Oliveira disse...

"Obrigado, Danilo e Janaína, por essa carta que debruça uma atenção afetuosa e cuidadosa sobre nosso espetáculo. Fiquei bem contente de ler uma reflexão sobre ele, e poder colaborar com essa reflexão, a partir de um olhar de quem se encontra no interior do trabalho.

Janaína, suas perguntas são bastante pertinentes e, frequentemente, elas nos são colocadas. Na verdade, são perguntas sobre as quais nos demoramos muito tempo durante todo o processo de criação, no sentido de tentarmos, Giselle e eu (e em seguida Kênia Dias, que colaborou conosco em uma etapa do processo), encontrar uma clareza sobre nossas escolhas de concepção. Desse modo, tento te responder à primeira questão lançada, deixando a segunda questão para que Giselle responda, visto que a pergunta foi diretamente direcionada a ela.

Bem, você se questiona, especificamente, sobre a cena que chamamos de "cena das arrastadas", e se pergunta sobre a repetição da ação de arrastar e sentar o outro em um banco e sobre a consequente dinâmica linear que dela resulta. Então, essa foi a primeira cena que trabalhamos, a partir de uma imagem lançada pela Giselle de dois corpos sendo arrastados. No início trabalhamos a cena ainda não conectada com o tema, investigando apenas as possibilidades de movimento e de exploração do tempo a partir dessa ação. Mas com a investigação, fomos detectando que esse elemento de movimento nos informava três coisas que se associavam diretamente com a temática do envelhecimento: 1- a objetificação do idoso em nossa cultura (quando tratado como coisa, carregada e esquecida em um canto); 2- o dilatamento do tempo da espera, a repetição da rotina, o vazio do cotidiano de corpos que passam a ser tomados como corpos desprovidos de suas funções; 3- A figura do cuidador de idosos (seja alguém da família ou externo a ela, como um enfermeiro, por exemplo) que, em situações mais extremas, pratica essa ação cotidianamente, oscilando entre o cuidado, o respeito pelo corpo fragilizado do idoso, e a impaciência causada, talvez, também, pela rotina e repetição do gesto. Curiosamente, essa cena foi criada logo após um período em que minha família teve que lidar com a doença de meu pai, já idoso. Um câncer de pulmão agressivo, que nos colocou nesse lugar de cuidar de um corpo fragilizado e difícil, visto o forte temperamento de meu pai, e era flagrante notar essa oscilação entre o carinho e a impaciência de quem cuida de um corpo nessa situação, bem como observar as reações do corpo cuidado, de obediência, resignação, alheamento, catatonismo, etc.

Édi Oliveira disse...

Assim, eu e Giselle optamos por assumir esse longo período de monotonia, de repetição, de tédio no espetáculo, entendendo que nessa cena o dilatamento do tempo, a linearidade e as sutilizas dos corpos quando deitados no chão ou sentados no banco em espera e alheamento eram recursos importantes para a dramaturgia do espetáculo. Aliás, o recurso do dilatamento do tempo está em toda a estrutura do trabalho, que, conscientemente e propositadamente, não tem ápices nem explosões. É um espetáculo de sutilizas, de coisas mínimas, de minúcias indo do movimento à trilha sonora, do cenário ao figurino. Estamos cientes que se tende a esperar de um espetáculo de dança que ele seja mais dinâmico, mais ágil. No entanto, a agilidade, a aceleração, a velocidade, não eram recursos, para nós, coerentes para o tratamento exatamente da perda de velocidade, da diminuição da agilidade, do vazio.

O Rodrigo Fischer, ator e diretor aqui da cidade, nos escreveu, no dia seguinte, não em carta, mas em mensagem por whatsapp, o seguinte comentário: "Fazia tempo que não via um espetáculo que tivesse a forma tão impregnada do próprio discurso. Afinal a forma em si é ou pelo menos deveria ser contéudo no palco". E me sirvo dessa fala do Rodrigo, porque para mim e Giselle isso sempre foi uma preocupação: encontrar uma cumplicidade entre a temática e a estética, entre o conteúdo e seu invólucro. Apenas para deixar um pouco mais claro, posso dizer que chegamos a experimentar fazer a mesma cena com menos repetições das arrastadas, por exemplo. Nós fazemos 6 arrastadas no total, e chegamos a tentar com apenas 4, mas nesse caso, a cena perdia em força, a ideia de tédio, de monotonia, de espera, diluia-se e a cena se enfraquecia e dizia pouco sobre o vazio da espera. Então insistimos na cena mais longa, para que tanto os "personagens", bem como o público, tivessem a real sensação da expansão do tempo, do monótono, do vazio.

Bem, acho que é isso. Certamente fui muito prolixo, sempre me acusam disso. Espero que também não tenha sido dilatado demais, tedioso demais, kkkk.

Beijo carinhoso nos dois,
Édi Oliveira."

Janaína Moraes disse...

Querido, Édi. Agradeço pela sua elaborada e preciosa resposta.

Como primeira vez me propondo a apresentar uma crítica publicamente, confesso que houve um receio em ser mal compreendida. No entanto, dado seu retorno tão consciente e cuidadoso em abrir mais sobre o processo, vejo que esses espaços de troca são necessários e sua prática deve ser muito incentivada.

Parabenizo a coerência da escolha que, de fato, demonstra mais ainda a potência estética apresentada por você e Giselle no trabalho. Sugiro a Danilo, e com isso peço sua autorização, em compartilhar sua "carta-resposta" no blog em que a critica foi lançada, para assim compartilhar com mais leitores o andamento das reflexões que podem contribuir com a comunidade de artistas, bem como o publico que pode vir a acessar novas camadas de reflexão e discussão di espetáculo.

Ah, pode ficar tranquilo, não foi prolixo nem tedioso na escrita, em minha opnião! Rs

Parabéns pela pesquisa e o trabalho artístico que tem sido gerado e até futuros encontros!

Com carinho. Janaína.

Danilo Castro disse...

Gente, sou plateia aqui. Os titãs da dança refletindo e eu aqui aprendendo. Ed, o blog é limitado mesmo. E claro q vou postar seu retorno. É maravilhoso receber resposta de uma carta, acho q não tem alegria maior para ela.

Simbora fazer esse espaço da crítica um lugar pra promover nosso fazer e não um lugar de elogios (que infelizmente é que ando observando aqui também).

Julia Henning disse...

Danilo,

como você me marcou no post, me senti provocada a escrever alguma coisa sobre a crítica. A partir do que me afeta, que é a proposta que você traz nas cartas-crítica. Se fosse depois da primeira vez que assisti, eu diria quase nada... o espetáculo me silenciou por dentro, como se me colocasse em um estado de espera, mudou meu tempo interno e daí não havia nada que precisasse ser dito. Como foi a segunda vez, me atingiu de outras formas. E foi exatamente a forma, o desenho, a estrutura, que mais me chamaram a atenção - profundamente conectados com a interpretação dos corpos. Nada sobra porque não tem excesso, só tem mesmo o que aqueles sujeitos trazem. Como o tema permeia seus corpos. O tema não é problematizado, apresentado, discutido. Ele é encarnado. É aí que, para mim, toca no questionamento trazido pela Janaína. Aquela mulher, para mim, não traz uma questão - ela é.

Fica aí um pouquinho do que a carta me trouxe.
Abraço,
Julia

Leonardo Shamah disse...


Excelente iniciativa essa de gerar diálogo crítico sobre as artes cênicas produzidas na cidade.

Giselle R Brito disse...

Querida Janaína, obrigada por sua carta! Não sei se entendi muito bem sua questão?
Apagamento do feminino? Em que sentido exatamente? Em algum momento específico do espetáculo? Ou durante todo ele? Você se refere à discussão de gênero? Não foi nossa intenção levantar essa discussão no espetáculo, embora ela estivesse presente em alguns momentos do processo, mas de fato o espetáculo tras um modelo de relação mais tradicional, vivido por nossas avós e avôs, pais e mães e ainda muito presente nos nossos dias. Como não tínhamos interesse de trazer a discussão de gênero, achamos por bem escutar o que o processo nos revelava. Inicialmente não havia personagem, muito menos relação de um casal! Mas há surpresas interessantes num processo de criação, que por vezes é difícil lutar contra. Não sei se te respondi! Se quiser clarear mais sua questão, responderei com maior prazer!
Grande abraço!
Giselle

Janaína Guimarães Moraes disse...

Querida Giselle, agradeço pela resposta. Coisa boa é poder dar andamento a discussões iniciadas em apreciação estética/poética. De fato o universo mais tradicional, das gerações de nossos pais e avós foi bem presente, o que se faz muito coerente à proposta apresentada. Particularmente, a cena das falas (memórias?) em que, ambos sentados aos bancos, Édi inicia o texto e logo mais você introduz suas falas de maneira que, a mim, passava uma sensação mais retraída, esquecida. Essa de fato era uma proposta? Se sim, gostaria de falar mais sobre a dinâmica escolhida pra esse momento? Mais uma vez, agradeço as respostas de vocês, acredito que a arte se concretiza quando nos abrimos a espaços de troca e reflexão como os que aqui acabaram se criando. Abraço forte! Janaína