quarta-feira, 23 de novembro de 2016

De Fortaleza à BH, enviadescer como sinônimo de libertação

Campeonato InterDrag de Gaymada! Diversidade no Rio de Janeiro

Belo Horizonte, 20 de novembro de 2016.

Lindas do Toda Deseo,

Dia da Consciência Negra e assisto a um  vídeo do discurso de uma garota preta, pobre, consciente do seu lugar de fala, que carrega na sua estética a defesa para o próprio tormento. Um tormento que não nasceu com ela, mas que impuseram à sua condição. Ela afirma que, cada vez mais, estamos encontrando pessoas que fazem parte da “Geração Tombamento”. Gente empoderada, que não tem medo de ser aquilo que é e que encontra nisso uma forma política de resistir no mundo. Talvez o coletivo de vocês, Toda Deseo, seja mais um reflexo dessa geração em tempos onde o país têm sido tão repressor, cerceado pelo fanatismo religioso no Congresso Nacional e no Executivo, pela hegemonia de pensamento de uma elite pequena que quer padronizar nossos corpos e nossos comportamentos.

Presenciei ontem o encontro das cearenses veteranas As Travestidas com vocês, bichas de Belo Horizonte que compõem o grupo Toda Deseo – jovens artistas que discutem a identidade de gênero em cenas onde escracho e sem-vergonhice são palavras de ordem. Tudo isso no nobre Sesc Palladium. E eu, no alto do meu conforto de homem-cis*, olhei pra vocês e quis que vocês fossem esteticamente “limpinhas” e impecáveis como As Travestidas são nas makes, nos figurinos, nos números de dublagem, canto e dança a la Teatro de Revista – ainda que a apresentação tenha sido fragmentada pelos longos blackouts entre os números.

Toda Deseo (Rocinha -RJ)
Gisele Almodóvar (Silvero Pereira), dyva mother das travas, avisou: “quem esperava ver uma dramaturgia, uma coisa séria, se deu mal. Aqui é um espetáculo de fechação!”. E quem disse que fechação não é um ato representativo de resistência? Ainda mais na cena teatral. A arte transformista tem ganhado respeito como linguagem cênica no Brasil, tem saído dos guetos e boates gays para ganhar palcos importantes do teatro brasileiro. E nisso, as travas, drags e atores-transformistas cearenses do grupo As Travestidas, numa luta que já dura mais de dez anos, têm responsabilidade grande.

A “poética trash” do Toda Deseo é também uma forma de se situar esteticamente no teatro contemporâneo brasileiro. Não à toa as alusões diretas ao Dzi Croquettes são recorrentes. Eles surgiram no meio da repressão dos anos 1960 e 1970 e vocês eclodem no meio do golpe de 2016. Para todo processo de repressão, haverá sempre um movimento contrário que se fortifica, que através da criatividade resiste no meio do caos. Vejam o que foi o nascimento do Butoh após as bombas De Hiroshima e Nagasaki. E mesmo que o Brasil seja o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, temos que comemorar que instituições respeitadas como o Sesc circulem com trabalhos como Uma Flor de Dama, do Silvero, na maior mostra de circulação de artes cênicas do país (Palco Giratório).


Aí descubro que vocês, Toda Deseo, pra completar, promovem as Fechações – criações de intervenções cênico-musicais e o Campeonato Interdrag de Gaymada, realizado em espaços públicos de Belo Horizonte. É pura viadagem! Quer coisa melhor? Um salve ao nosso bom humor, à alegria que nossa cultura LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) emana por natureza. No dia anterior, assisti a um evento internacional de Vogue no espaço Tambor Mineiro. Organizado por gays? Não! Por três belas garotas-cis do Trio Lipstick, que estão fazendo a cena na cidade enviadescer ainda mais ao trazer a cultura afrogay das periferias americanas para o Brasil. Os movimentos de cultura estão em fluxo, em transformação. Que possamos interagir, agregar pautas. Isso é que que elas fazem pela luta das mulheres e dos LGBT.


Tô pra achar uma capital mais inspiradora para desfilar de salto que Belo Horizonte. Enviadescer será sempre necessário. Enviadescer como sinônimo de libertação, não de homossexualidade. Nós, homens, mulheres, cis ou trans**, pessoas não binárias***, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, temos mais é que polenizar e polemizar destemidos nossas liberdades, nossos desejos – porque o tempo todo a maré fica tentando nos engolir. Toda Deseo, colem nas Travestidas, circulem com elas, aviadem ainda mais o Brasil!

MARÁ – o quê? – VILHOSAS!

Beijos,

Danilo.


*Homem-cis é aquela pessoa que nasceu com o sexo masculino e se identifica como homem.
**Trans são aquelas pessoas que nasceram com um sexo, mas que se identificam como do gênero "oposto".
***Pessoas não-binárias são aquelas pessoas que não se identificam nem como homem ou nem como mulher.




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