sexta-feira, 25 de novembro de 2016

OTELO: nova roupagem para que questão?

Otelo (2016), Cia. Brasilienses de Teatro.


Brasília, 25 de novembro de 2016.

James Fensterseifer,

Prazer, eu me chamo Danilo e costumo escrever sobre as cenas que assisto. Eu queria dizer diretamente a todos os que compõem o Otelo, by Cia. Brasilienses de Teatro, que assisti ontem durante o Prêmio Sesc Candango de Teatro. Porém preferi ter você como destinatário primário dessa carta-crítica não pela tendência escrota que nós (críticos, artistas, acadêmicos, jornalistas) temos de hierarquizar o papel da direção como superior ao papel dos atores, técnicos, etc. Mas porque acredito que o que assisti tem uma referência muito forte do seu olhar de encenador. Me corrija se eu estiver enganado, por favor. Se o processo for colaborativo e horizontal na concepção estética.

Fiquei pensando nas suas escolhas e resoluções para dar conta da tragédia shakespeariana. Fiquei pensando no papel dessa dramaturgia para o teatro contemporâneo, mas principalmente no papel do que você propõe com a direção e com os signos que evoca através da iluminação, figurinos (Marcus Barozzi), cenário, sonoplastia (Adriano Sommer). Quais provocações vocês querem lançar pra nós com esse trabalho? Qual é a questão da obra de vocês? Eu pergunto realmente na dúvida, acho que não consegui captar. Ou será que ficou difuso tudo isso? Ou será que o mote era simplesmente tentar dar uma nova roupagem - inspirada no movimento construtivista (como diz a sinopse) - a uma obra clássica? O objetivo é redizer aquilo que já está dito, aquilo que já conhecemos dessa renomada obra da literatura inglesa?

Essa carta não é para desafiar, muito menos depreciar a poética de vocês. É para refletir. Reconheço com todo respeito esses mais de dez anos dedicados ao teatro dessa Brasília que me acolhe desde 2013, quando pisei aqui pela primeira vez, mas há um lugar político do fazer teatral dos nossos tempos que talvez peça mais força à obra, peça um argumento mais denso que case ou destoe do texto medieval de amor-ciúme-ódio que vocês nos apresentaram. A gente sabe o que o autor quer nos dizer. Mas o que a Cia. Brasilienses quer com essa obra, mesmo que seja a terceira de Shakespeare que vocês lançam ao mundo?

Daí me vem à cabeça vários pontos que gostaria de pincelar: o gran finale com o blackout a la Deus Ex Machina* resolvendo como de costume as mortes de Desdemona (Rodrigo Issa), Emília (Gustavo Gris) e Otelo (Tainá Baldez) – aqui reconheço uma importante discussão de gênero na inversão dos papéis entre homens e mulheres da companhia; friso também a ausência de transição quando Emília descobre que Desdemona está morta; o solilóquio aparentemente  desproposital, brando, pacífico e leve de um Otelo assassino que está tomado pela fúria do seu próprio amor. Para pensar: o que significa chamar pejorativamente de negro um Otelo de 1603, mas no ano de 2016?

Acerca do cenário fúnebre, da iluminação penumbrosa, dos figurinos dark (com telas e borboletas que anulavam o rosto dos atores, distanciando-nos deles) o que me chegou foi uma concatenação de elementos que provocavam pouca mudança na composição imagética, deixando tudo, ao meu ver, com um ritmo linear. Das pessoas que conversei, sentimos o mesmo: a vontade de ser surpreendido, de arregalar o olho para adentrar naquela trama e crescer com ela. Talvez vocês tenham na mão uma dramaturgia tão consolidada, que não seja mesmo necessário muitos elementos, transições, mudanças de luz. Porém, essa história teria que de fato estar orgânica aos atores, dum modo que seria apenas necessário que eles existissem para que a obra acontecesse.

Espero que eu tenha conseguido explicar tudo que pensei sem me enrolar tanto. E que possamos aprender juntos sobre teatro.

Com respeito,

Danilo.


*De origem grega, Deus Ex-machina refere-se ao surgimento de um evento introduzido numa trama ficcional com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo.

Um comentário:

Gustavo Haeser disse...

Queria ter tido você no Entre Quartos...
Critica de questionamentos.
Bonito isso!