domingo, 25 de dezembro de 2016

Espetáculo Olaria, a crítica teatral fascista e a prisão de Aristóteles


Olaria. Foto: Divulgação.

Fortaleza, 25 de dezembro de 2016.

22ª turma de Licenciatura em Teatro do IFCE,

Faz algum tempo que quero escrever a vocês. Hoje, em pleno Natal, vou desatinar a refletir nessa carta sobre o trabalho Olaria, que assisti no Teatro Carlos Câmara, durante o 12º Festival de Teatro de Fortaleza. Diante de uma dramaturgia ou quem sabe “não-dramaturgia” essencialmente física, com foco no estado de presença e experiência que Dan Borges, Edna Freire, Erlyson Ferreira, Gilberlan Meneses, Joice Forte, Jéssica Sá e Kekel Abreu propõem, cheguei a questões que quero discorrer adiante.

Ainda que vocês tenham se baseado em duas obras do santista Plínio Marcos (1935-1999), eu, que assisti desavisado, não parti desse pressuposto. E fui levado a um pequeno nó: qual a questão que eles querem provocar? Em mim, despertei para ideias que remetiam ao grotesco dos corpos sem polimento, desavergonhados e escatológicos que somos como animais, mas que negamos pela normatividade que o corpo social impõe ao nosso comportamento. E caí numa reflexão sobre os aprisionamentos do ser, da arte e do teatro. Daí, para minha surpresa é sobre os aprisionamentos humanos que vocês falam. Não à toa os pontos de partida são as peças Barrela (1958) e A mancha roxa (1988), do Plínio, como pude ler na matéria de Renato Abê no jornal O Povo.


Tom Zé, em uma entrevista para Jô Soares, fala da “prisão” que o canto gregoriano (séc IX) nos submeteu ao definir uma partitura delineada a partir das notas dó-ré-mi-fa-sol-lá-si. Isso teria imposto uma rédea aos compositores até hoje. Tudo que estiver fora dessa métrica, estaria errado. Ressignifico esse enclausuramento à Poética de Aristóteles, (usualmente atribuída a 400a.C), onde a noção de drama (início-meio-clímax-resolução), traz a palavra como elemento fundamental do teatro. Tragédia e comédia são definidas por estruturas que primam pela história, pelo enredo, pelos personagens em um tempo e um espaço. E isso ainda nos aprisiona.

O Natyasastra é um tratado escrito em sânscrito possivelmente por volta de 400 d.C. Menos popular no Ocidente, mas tão relevante para as artes cênicas quanto a Poética de Aristóteles, o tratado traz fortes noções sobre a palavra, mas principalmente sobre a experiência cênica em sua amplitude. E na nossa lógica contemporânea e pós-dramática, apreciar a cena em sua totalidade, como experiência, seria mais condizente com nosso tempo. Ou será que afirmar isso é autoritário? Apesar de ter perdido o anzol várias vezes ao assisti-los, algo velado me segurava ali. Talvez o estado de presença que vocês emanavam. Ou os nós que fui amarrando na minha produção pessoal de sentidos.

Olaria. Foto: Divulgação.
É distante dessa prisão das normatividades estilísticas da dramaturgia textual como princípios irrevogáveis e das regras do teatro que o crítico deve habitar. Estou lendo “Como conversar com um fascista”, da Márcia Tiburi. E refletindo sobre os meus microfascismos e meu lugar de opressor em vários âmbitos. Ainda que eu me considere de esquerda, sensível às pautas sociais, negro e gay, não estou livre de abusar e oprimir. Nem eu, nem vocês. Às cegas, infelizmente, isso também nos constitui. Todos nós somos opressores em algum grau.

Ou seja, a lógica autoritária da crítica teatral ainda me contamina. Mesmo que seja dela que eu tente fugir o tempo inteiro. Assim como a lógica das regras que pautam o que seria certo ou errado no teatro nos contamina como artistas. É do patamar dos críticos e críticas voyeurs, que analisam de cima, como um explicador maior da arte teatral, que preciso descer. Até porque esse lugar não existe. Alguém um dia o impôs. E como o fascista não pensa e não dialoga, apenas reproduz comportamentos, é muito fácil estar nesse lugar sem perceber. Precisamos refletir, nos desaprisionar em todos os sentidos.

Feliz Natal, queridos. Sejamos livres juntos!

Danilo.

4 comentários:

OLARIA - IFCE disse...

Muito bom, Danilo! Em nome da turma, agradecemos pelas palavras! É uma reflexão diária sobre o que nos move nesse espetáculo e nas nossas vidas. Obrigada!

Robson Levy disse...

Me sinto extremamente representado por Olaria e pelas suas palavras! Muito importante refletirmos sobre esse fascismo que ainda nos impede de embarcar em experiências sensíveis que destoam do real construído/imposto. Arte é criação de mundo, criação de realidade, criação de possíveis. Enquanto tivermos a verossimilhança e a preocupação com o realismo em nossas criações, estaremos deixando de lado a oportunidade de investigar através do teatro capacidades inimagináveis da espécie humana. Inimagináveis porque o mundo não nos dá permissão para exercitá-las. Desde o nosso nascimento somos censurados quando algo em nós destoa dos moldes impostos de realidade. A arte não pode reproduzir isso. Olaria me toca por ser uma obra de arte que não abre concessões, que não dobra, que não baixa a cabeça.

Anônimo disse...

eu fico sempre me questionando sbre essas prisões que as pessoas nos impõem por toda a vida. E se eu tivesse sido criado num mundo sem prisão? E se minha educação não tivesse sido pautada no cristianismo, na culpa, no pudor e no medo? E se minha escola e as faculdades (inclusive o próprio IFCE) não tivessem sido tão eurocêntricas. Quem eu seria? Provavelmente muito mais livre. Obg pelo comentário! Abraços, querido. Isso é sobre teatro, mas também sobre vida. Liberdades!

Camila Vieira disse...

Que texto maravilhoso, Danilo. Não vi o espetáculo, mas fico bem triste em saber deste aprisionamento do teatro pela verossimilhança. Na minha cabeça, o teatro sempre foi mais libertador que o cinema, que sofre muito com essa defesa cega do realismo.