quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre Príncipe Norueguês, por Walmick Campos

Foto: Márcio Melo. Semana do Teatro no Maranhão.


São Paulo, 1º de fevereiro de 2017.

Danilo,

Queria dialogar sobre a abertura de processo do seu próximo trabalho, intitulado Príncipe Norueguês, um documentário cênico sobre o desamor, que você apresentou na 45ª edição do Pequenos Trabalhos Não São trabalhos Pequenos, na Casa da Esquina, em Fortaleza. Acho seu processo necessário, verdadeiro, intenso sem precisar se confundir com visceralidade. É um ótimo casamento entre a forma escolhida com o conteúdo exposto. A lente de contato colorida é um efeito fabuloso no seu olho desde a hora em que é apresentada até o fim. As frases racistas elencadas, bem como as autorias delas, são de extrema importância.

Evandro, pai de Danilo, durante a juventude.

Lembrar que o preconceito se faz intrínseco desde desconhecidos, amigos e familiares aos artistas – estes que em um perfil geral são engajados às causas democráticas – é cortante. E pra acontecer, tem que cortar mesmo. Faz-se necessário abrir a fenda. Seu registro familiar é conciso e preciso: fotografia com o irmão, e o que dela reverberou em parte da sua vida; fotografia do seu pai (trazendo a essência da negritude black power) e o paralelo com a possibilidade (poética inclusive) de como você e ele vivenciaram o preconceito por percepções distintas, devido ao sentido da audição (o pai do ator é surdo).           

Danilo e o irmão, David. Festas Juninas de 1991,
no Colégio Cosmos, em Fortaleza
O tom documental traz o Danilo jornalista, sem ficar grifando isso. Algo que gostaria de ressaltar como positivo foi o fato de a performance não ter um discurso de vitimização – que em geral, pra mim enfraquece o argumento. Sabendo que o termo “vitimização” pode gerar ruído, tentarei esclarecer aqui o que digo: penso que, quando os segmentos/movimentos de minoria discursiva têm espaço para falar, já é claro que se tratam de vítimas do sistema opressor em que vivemos. Reforçar ou colar em si o tom vitimista – quase que romântico – empobrece o discurso, o diálogo, e as transformações que podem surgir. Considero que é uma linha muito tênue, que poderia te derrubar a qualquer hora; mas você passou por ela com precisão.

Reverberações

Durante a performance, janelas abriram na minha cabeça, e talvez por isso fiquei com vontade de conversar sobre. Até porque essas janelas me levaram para outros campos, discursos e temáticas. O que é bom. Você usa várias frases, dentre elas uma que você ouviu de um homem que amou: VOCÊ É TÃO BONITO QUE SE FOSSE BRANCO SERIA UM PRÍNCIPE NORUEGUÊS. Uma janela foi me questionar se alguma daquelas frases racistas eram minhas. E o mais louco: mesmo achando que não, em mim vinha o sentimento de culpa – creio que por ser um branco de olhos claros. Era como se a autoria das frases tivessem minha responsabilidade, a partir da ideia de ancestralidade que vinha na minha mente ao assistir o experimento. Como se tivéssemos olhando para os nossos antecedentes negros e brancos, você e eu respectivamente.

Teste de lentes de contato.
Outra foi perceber que, em certa medida, acompanhei essa transição que se passou por você. Não conheço você desde sempre, mas sinto que desde que te conheci até hoje, vi diferentes Danilos. Claro que isso é sobre o seu processo de amadurecimento e percepção de si – automaticamente sou transferido para os Walmicks que também passaram por mim. É muito louco isso, mas é assustadoramente interessante.

Daí me veio em mente o fato de você ter falado sobre seu mestrado ser sobre você. Claro que você me falou isso muito por cima e corrido, não dando pra saber exatamente como se desenrola essa sua reflexão. Fiquei curioso para entender. Até porque me parece algo muito desafiador se tomar como objeto e ao mesmo tempo ser verdadeiro consigo e com a pesquisa. Não digo isso por duvidar da capacidade ou do interesse pela “verdade”, mas é que não me parece algo claro ou tranquilo de fazer sozinho. Talvez essa minha dúvida seja viagem de quem (eu) adora terapia.

Teste de cabelo.
Falar de si inevitavelmente traz coisas bacanas e não bacanas. E como se dá o choque entre elas? E como expor os dois lados coerentemente? Que segmentos de si são selecionados? Por exemplo: devido ao teor da sua performance, imaginei que em algo mais amplo você venha a falar sobre seu processo de reconhecimento enquanto brasileiro negro e gay. E uma nova janela se abriu na minha cabeça se perguntando sobre quão interessante poderia ser confrontar seus possíveis discursos em diferentes etapas. O que o Danilo de 2000 fala (ou nega) de diferente do Danilo de 2017, seja em relação à negritude ou homossexualidade? O quanto os anseios de vida mudam junto com a transformação do discurso?  Pode ser que isso seja muito raso e estúpido, mas foi parte do que reverberou em mim.

Por fim, gostaria de dizer que estou disponível para dar continuidade no diálogo. Tanto para tentar aprofundar, como para tentar limpar algum ruído que tenha dificultado a compreensão da minha fala. Parabéns pelo trabalho e pesquisa. Ela tem grande relevância para o tempo que estamos vivendo – que não só é de grande opressão, como de muita gente que pega carona nos discursos como se fosse uma moda, e não uma necessidade real nossa.

Walmick Campos.

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