quinta-feira, 1 de junho de 2017

O luto alegre de Matheus Naschtergaele

Mateus Nachtergaele. Foto: Divulgação

Brasília, 1º de junho de 2017

Matheus e Maria Cecília,

O passado a gente não muda. Tem hora que ele grita forte em nós, de um jeito que a gente parece não conseguir conter. Parece. Porque esse grito do agora a gente tem sim o poder de cons/certar - por mais que a nossa história seja escrita para além de nós, de um jeito que, muitas vezes, nossas mãos não dão conta de puxar as rédeas. Nós também temos uma força maior do que a gente imagina na condução das nossas próprias tramas. 

Não se trata de apagar os problemas que ainda reverberam em nós, mas de aprender a conviver com eles. Dar uma trégua a nós mesmos não para abandonar a dor ou se dar por vencido, mas para ressignificá-la. Ser humilde com nós mesmos. Nos dar uma chance diante da revolta. E foi com essa reinvenção do desejo de cura que me deparei ao assistir você, Matheus e sua mãe – Maria Cecília, em Processo de conscerto do desejo, na Caixa Cultural de Fortaleza.


Eu poderia aqui tentar discorrer sobre a música ao vivo de Luã Belik (violão), Henrique Rohrmann (violino), sobre seu trabalho de ator, Matheus, sua direção ou sobre os seus textos, Maria Cecília, reinventados na voz, no corpo e na alma de seu próprio filho. Mas o amarelo sobrepondo sobre a mancha vermelha daquele tiro fez mais barulho – que bom. Matheus, não sei o que é perder uma mãe, muito menos quando essa perda é de um jeito que só sua mãe poderia explicar. Ela foi dona de si. E, como dona de si, fez aquilo que quis consigo mesma. Não cabe a ninguém o julgamento do seu ato. 

Maria Cecília, eu não sei mensurar a dor que deve ser deixar um filho bebê, prestes a se batizar, para viver nesse mundo cão sem os cuidados de uma mãe. De tudo que eu vi, o que nos cabe é apenas o aprendizado. Aquilo que vocês dois, juntos em deslocamento no tempo e espaço, nos ensinaram naquela noite de música e poesia no teatrinho de bolso da Caixa Cultural cearense. Você é sua mãe, Matheus. Você é seu filho, Maria Cecília. Nós somos sempre a herança daquilo que foram antes de nós. E essa herança vive, Maria Cecília. Tanto que eu tenho a certeza plena de que eu consegui te ver.

Eu lembrei das noções de biodrama, teatro documentário, mas principalmente das práticas terapêuticas Psicodrama (Jacob Levy Moreno) e Constelação Familiar (Bert Hellinger). Ambas sem propósitos artísticos, mas que se utilizam do teatro como suporte para transformação de indivíduos tristes. O luto de vocês virou poesia, ganhou potência e mais, nos faz sair do teatro leves, com mais ânsia de vida.

Uma vez apresentei uma cena do Projeto Achados & Perdidos, onde eu, a partir da memória de um dos membros do coletivo, induzia o público a uma leitura suicida. No debate após a sessão, uma mulher me disse: por que vocês, artistas, exageram no tempo da dor? Eu queria ver o teatro exagerar no desabrochar de uma flor. E foi isso que vi. Vocês desabrocharam juntos - alegres. A dor virou celebração. Não que o sofrimento não nos seja importante, mas precisamos dele extrair aquilo que ele quer de nós, como diz a filósofa Viviane Mosé. Vem, sofrimento, e me diz o que tu queres de mim para que eu seja uma pessoa melhor! A carência do desejo virou gozo e satisfação. Se estávamos emperrados, agora estamos em cons/certo.


Obrigado aos dois.

Danilo.

5 comentários:

Gorette Castro disse...

Queria ter assistido.

Renato Abê disse...

uma reflexão pertinente sobre o desabrochar de uma flor

Harding Benício disse...

Que crítica fantástica

Iara Moura disse...

minha mãe me ligou chorando e rindo dizendo que eu tinha obrigação de vê esse espetáculo! Vou já ler tua crítica

Dani Guerra disse...

Cara, sem palavras para esse espetáculo, realmente o que nos fica é o amarelo mesmo. Ele também revelou na conversa que a peça já passou por várias modificações, que também estava bem mais pesada e recebeu a dica de um amigo dele: As pessoas não estão aguentando.

Para mim, foi catártico.