sábado, 15 de julho de 2017

Sobre Caiporas e golpe no Brasil

Caipora quer dormir. Foto: Diego Bresani


Selva-Brasília, 15 de julho de 2017

Caiporas,

Essa carta é pra vocês, envolvidos no espetáculo Caipora quer dormir, recém-estreado no teatro Plínio Marcos, da Funarte, com direção de Jonathan Andrade. Essa carta é também pra mim, que não canso de tentar entender os porquês da minha passagem nessa vida. Essa carta é pra nós, brasileiros e brasileiras, que, em vez de estarmos em luta nas matas feito a entidade-fantástica-mitológica-Caipora, estamos aprisionados na rotina como a professora encenada por Giselle Rodrigues. 

Essa carta é para o Temer, que no dia 7 de julho, afirmou que não há crise no Brasil. Essa carta é para o Trump, que no dia 8 de julho elogiou a economia do Brasil. Essa carta é para Rogério Marinho (PSDB), relator da Reforma Trabalhista, aprovada dia 11 de julho no Senado. Por “coincidência”, ele é o mesmo relator da emenda constitucional 95, que já está vigente e congela por 20 anos os gastos com Saúde e Educação. 

Essa carta é para Moro, que no dia 13 de julho condenou Lula “por convicção”, sem provas. Essa carta é para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que no mesmo dia absolveu Temer mesmo após os áudios que deflagram que ele recebia propina. Essa carta é para os empresários do golpe, que vão se beneficiar da melhor queda do dólar desde a delação da JBS, dando a falsa ilusão à população de que a economia no Brasil melhorou. Essa carta é para vocês, que estrearam um trabalho no meio desse furacão. 

É o mundo que tá correndo lá fora ou é a gente que tá correndo do mundo? É o tempo que aprisiona a gente ou é a gente que se deixa aprisionar no tempo? Que tal tentar domar o tempo? Se articular tão bem a ele quanto os empresários do golpe no Brasil. Onde está a Caipora em nós? Essa Caipora evocada por Giselle, que arranca do chão um tronco pra demarcar que ela é mais forte do que pensam que ela é. A Caipora é agora. A Caipora é o teatro. É a vida impossível de se transcrever aqui. 

A crise política e social não pode embrutecer nossas subjetividades. A fadiga situacional não pode aniquilar nosso espaço sensível de produção artística, crítica e autocrítica. Não podemos ser a professora estafada pela própria vida, pelo trabalho, pela rotina. Então, como nos afetarmos de tudo isso que nos dói no Brasil de hoje para nos potencializarmos enquanto disseminadores da reflexão, em vez do ódio? Do embate lúcido, em vez de cruzar os braços ensimesmados em ideais irredutíveis? Da resistência e luta das micropolíticas, em vez do cansaço?

Pra mim, talvez, mais importante que refletir sobre os né com cré da estética que vocês propõem no espetáculo refinado que vi hoje, seja pensar em como fomentar aquilo que já nos toca para que a intensidade do discurso de vocês nos arrebate ainda mais forte. Caipora quer dormir é mais do que o que assisti hoje. Então dorme, Caipora, dorme que lá fora é cobra comendo cobra e você precisa de força pra não esmorecer, professora. Teatrar é resistir. Resistir é ser Caipora.


Com sangue nos olhos,

Danilo.

Um comentário:

Jonathan Andrade disse...

obrigado pelo olhar e partilha tão generosa e calorosa. Delicia ler e respirar as suas reflexões arrepiadas em mim. Obrigado. Beijo imenso