sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Barro Rojo: entre tapas e afetos

Foto: Bruno Meyer


Brasília, 24 de agosto de 2017

Javier Liñera,

Na revista cubana Tablas (2008), o pesquisador espanhol Oscar Conargo questiona: “Como saber quais as boas obras, que são mais bem interpretadas, o que vai entrar para a história, que história é. Quais são os critérios?”. Ontem, ao te assistir em Barro Rojo, no pequeno teatro do Sesc Garagem, durante o Cena Contemporânea 2017, pensei em discutir com você e com quem me lê agora sobre o risco do seu trabalho de ator e o risco do meu trabalho de crítico.

Com direção de Daniela Molina e Linda Wise, você nos conta a história de um homem torturado na Alemanha de Adolf Hitler (1889-1845) e na Espanha de Francisco Franco (1892-1975) simplesmente por ser gay. É um espetáculo em homenagem a todos aqueles que morreram vítimas da homofobia durante os períodos de recessão militar. E, ainda que décadas tenham se passado dessas realidades cruéis, no Brasil, ainda somos o país que mais mata por homofobia, de acordo com relatório do Grupo Gay da Bahia (2016).

Somos um país com um projeto de lei intitulado Estatuto da Família (PL 6583/2013), que tramita no Congresso, com adesão de uma maioria fanática cristã, para restringir os direitos civis de homossexuais, definindo apenas a união de homem e mulher como família. Por isso mesmo o seu espetáculo, Javier, nos é necessário. Te indico um trabalho brasileiro interessante, que faz um bom diálogo com o seu. Chama-se BR Trans (2013), de Silvero Pereira. O intérprete, também em tom documental, conta histórias que colheu de diversas travestis no percurso Ceará-Rio Grande do Sul, numa poética que se assemelha a sua, em alguns aspectos.

Estar em cena, definitivamente, é dar a cara a tapa. Fazer crítica também. E me questionei se não havia no seu trabalho uma celeridade rítmica e um não polimento das ações e marcações do palco que te atrapalham mais que te potencializam. Não que para performar seja necessariamente preciso codificar. Mas, na sua proposta, a descodificação me chegou como uma ausência de arremate e não como uma encenação livre e despojada. Se a sua energia não oscila durante a dramaturgia do seu trabalho de ator, a gente, do lado de cá do teatro, vai se desinteressando.

Em muitos momentos, nós já sabíamos o seu máximo, então nada de novo nos fisgava no seu trabalho como intérprete dessa trama instigante. E sobre os seus choros, quando não forem choros críveis, talvez seja preciso ainda mais cuidado na hora de simulá-los. Podem cair num aspecto fajuto. Conte-nos aquelas dores, apenas. As histórias são trágicas por si, são dolorosas por si. São suficientes para emocionar. Então volto ao pensamento de Oscar. Como saber quais as obras mais bem interpretadas? Você pode me questionar: como saber qual a boa crítica? Qual autoridade você tem para falar do meu trabalho de ator?

Crítica opiniosa é diferente de crítica com opinião. Aquela parte do gosto, esta parte da reflexão. E meu papel aqui é o de tentar sempre contribuir pra te potencializar ainda mais. Eis os nossos dilemas. Estamos em risco. Você na cena. Eu na escrita. Mas eu cá estou para afetar, nunca para tapear.

Com respeito,

Danilo.

Fonte: Cena Contemporânea 2017

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