quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Black Off: Como vocês no Brasil chamam as pessoas negras?

Foto: Rômulo Juracy


Brasília, 24 de agosto de 2017

Querida pessoa que me lê,

Você provavelmente não me conhece. Por isso, primeiro gostaria que você imaginasse honestamente como eu, um dos críticos do Cena Contemporânea 2017, sou fisicamente. Pense antes de continuar a ler. Pensou? Acredito que não foi a imagem de um homem negro que veio à sua cabeça. Pois bem. É também dessa violência simbólica e estrutural que Black Off, espetáculo sul-africano que abriu o festival ontem na Caixa Cultural, trata.

Se você é uma pessoa branca, a “post drama queen” Ntando Cele pode ter te constrangido. Você pode tê-la achado agressiva ao trazer os dolorosos dilemas das “white people problem” na figura de sua persona coach certificada Bianca White. Quando ela lança para o público – majoritariamente branco, afinal, teatro na Caixa Cultural ainda é prioritariamente das pessoas brancas – a pergunta: como vocês no Brasil chamam as pessoas negras? Um homem branco respondeu num tom de obviedade: “negros!”, como quem diz “ué?”. Ao fundo, um homem negro respondeu “MACACO!”.

Parece que muita gente branca tá fechando os olhos pra não enxergar aquilo que o Black Off escancara: seu racismo. Uma performer preta, pintada de branca, com lentes azuis, peruca loira, figurino comportado faz um belo stand up para que você reconheça os privilégios em ter nascido branco numa sociedade racista. E teve gente branca que saiu se sentindo ofendida – protegida pela ideia equivocada de “racismo reverso”. Ntando não ataca ninguém. Ntando nos dá uma resposta a tanta violência. Se a carapuça serviu, é o que tem pra hoje, baby. Imagine ter a saúde mental violada por crescer ouvindo ofensa racista, apanhar por causa de racismo, morrer por causa de racismo. O nosso lugar de revolta, nem sempre paciente e didático, também é um lugar legítimo.

Em Gêneses 9:1-29, Noé amaldiçoa o neto: “Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos”. Canaã é filho de Cão, que significaria, em hebraico, escuro ou queimado. Cão teria sido o responsável por povoar a África após o dilúvio. Esse motivo justificou a escravidão – os colonizadores estariam resguardados pela Bíblia Sagrada. Escravizar é sinônimo de lucro. A Emenda Constitucional 95/2016, que congela até 2036 os gastos com saúde e educação, é sinônimo de lucro. A Reforma Trabalhista é sinônimo de lucro. O lucro e a hegemonia eurocêntrica e cristã, seja em 1500, seja em 2017 no triste parlamento brasileiro, são perversos e racistas.

Pode o subalterno falar? (1985), questiona a indiana Spivak ao trazer os estereótipos que os hegemônicos constroem para nos retratar. Pode uma preta interdisciplinar grávida dirigir e atuar no próprio espetáculo e ainda fazer um show de rock rebolando a bunda dentro de um teatro em um dos maiores festivais de cênicas do país? Ntando Cele será um dia considerada uma grande artista contemporânea ou será sempre uma grande artista negra contemporânea? Serei eu um dia um grande crítico ou serei sempre o crítico que precisa afirmar-se negro em tudo que produz?

Precisamos descolonizar as artes e o conhecimento. Sair das senzalas que ainda nos acorrentam. Sair das casas grandes que ainda nos confortam. Como uma rainha pós-dramática, Ntando tem muito o que nos ensinar sobre as artes, sobre a vida. É um espetáculo em legítima defesa. É manifesto incômodo para muitos de vocês, brancos que andam ocupados demais com suas artes acadêmicas e complicadas. No fim, Ntando pisa num território que também é nosso, mas sempre nos disseram que não. Querida pessoa branca que me lê, racismo é também um problema seu.

Beijos escuros.

Danilo

Crítica publicada no site do Festival Internacional Cena Contemporânea 2017.
Escrevo a convite do evento.

Um comentário:

Ronaldo Saad disse...

Assisti aqui em SP esse ano! Foi um soco no estômago!