segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Tsunami: tragédia para refletir sobre drama e colaboração


















Brasília, 26 de agosto de 2017

Jonathan,

O italiano Eugênio Barba fala sobre um Terceiro Teatro, que seria aquele onde os coletivos deixam suas heranças legitimadoras (teóricos do teatro no mundo) se diluírem para se tornarem “autônomos”, com descobertas e caminhos teóricos e práticos próprios. Resumindo, talvez ele esteja falando da consistência de se encontrar uma identidade a partir de uma metodologia surgida após um longo período de treinamento. Te escrevo depois de assistir o Tsunami, que se apresentou ontem no Cena Contemporânea 2017, no Sesc Garagem.

Há pouco mais de um mês, assisti o seu Caipora Quer Dormir (2017), recém-estreado na Funarte Brasília. Em ambos os trabalhos, creio que consigo enxergar a tal identidade da sua poética. Pontos que se evidenciam com potência nas obras e que, certamente, só existem porque seus processos devem ter ganhado cada vez mais corpo, língua e asas que te levam além dos territórios artísticos que foram legitimados antes de nós. As mulheres em solo. O cenário que surpreende como mágica a cada novo manuseio. A iluminação que desenha a imagem como uma pintura refinada ou quem sabe um cartoon. A atmosfera jocosa, brincante, infante.

Tsunami talvez seja mais de você do que você imagina, mas também muito daqueles que caminham contigo. Tsunami talvez seja até mais nosso, público, do que seu. Tsunami talvez seja muito dos jovens da escola Stella dos Cherubins, em Planaltina (DF), que participaram do seu processo criativo. E nessa onda pós-dramática, te vejo tão dramático e, ao mesmo tempo, tão contemporâneo que você consegue criar um espaço de coexistência entre o novo e a tradição. Sua dramaturgia segue a linha apresentação-problema-clímax-resolução. Em geral, somos treinados apreciar teatro somente dessa forma, com uma história que nos é contada, infelizmente. Teatro está bem além disso, sabemos.

Mas o seu drama é repleto de nuances e de complexidades que nos levam a várias atmosferas num lugar com signos tão fortes que é quase como se o drama fosse de igual peso diante dos outros elementos que compõem sua obra. Tudo vem com força, de uma vez, e sem tanta hierarquia entre dramaturgia, direção, cenografia, adereços, sonoplastia (Tomás Seferin), videomapping (Fernando Gutierrez), maquiagem (Roberto Dagô), performance (Ana Flávia Garcia). Rimos, choramos, temos compaixão, nojo, somos cúmplices da protagonista de Tsunami: uma mulher solitária que nos conta em gramelô* uma história de perdas em uma grande tragédia.

A sua história não seria a mesma se lhe faltasse qualquer um desses elementos, obviamente. Mas acho que seria ainda pior: a máquina não funcionaria. A equipe artística que trabalha com você, cada um na sua especificidade, é capaz de nivelar-se à potência do seu drama-direção. Que bom, senão poderíamos cair no risco de um trabalho hierarquizado na apresentação de seus elementos, como é comum em muitas direções que se dizem não-hierárquicas. Essa carta é para você, talvez porque nós, críticos e jornalistas, temos essa tendência de hipervalorizar autor e diretor. Mas, na verdade, essa carta é também para a turma que te acolhe nas suas ideias e cria com você. Eis o achado de estar em colaboração.

Um beijo, querido!

Danilo**

*gramelô é uma espécie de conversação improvisada sem o uso específico de uma língua. Um conjunto de sons livres emitidos pela intérprete vão compondo ideias e a comunicação com o público vai sendo estabelecida.

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