sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Carnaval de Kitinete: por mais Circo, Dança e Performance no Cena 2017!


Foto: Humberto Araújo


Brasília, 29 de agosto de 2017

Léo,

Uma apresentação de Artes Cênicas não é só um evento. É uma experiência. O filósofo argentino Jorge Dubatti, em Teatro dos Mortos (2017), fala sobre teatro não como um lugar para ver, mas para conVIVER. Ele compreende Circo, Dança e Performance dentro do termo “teatro”. E o seu Carnaval de Kitinete, que partilhei com você e mais alguns desconhecidos ontem numa kit da quadra comercial 716 Norte, durante o Cena Contemporânea 2017, me deslocou daquele lugar confortável e comum que nos colocamos enquanto espectadores: faça que eu estou aqui para assistir.

A experiência começa ao procurarmos o endereço da sua galeria-doméstica. Algumas pessoas sabem dizer onde é, outras não. Ao chegarmos na portaria do prédio, uma pessoa da produção avisa que devemos nos dirigir ao trailer do outro lado da pista para recebermos as instruções. Duas mulheres que estão tomando vinho nos esperam. Sentamos com elas e recebemos as instruções para a apreciação do seu trabalho, com direção-curadoria de Tatiana Bittar.

Regras: pode fotografar, pode filmar, pode conversar, pode tocar nos objetos, pode entrar sem bater. Faz tempo que o francês Marcel Duchamp colocou um mictório num museu (1917), mas ainda estamos condicionados a não interagir porque muitas vezes nós, artistas, criamos obras cênicas de cima para baixo: sentem e nos assistam. Bora desacostumar da tradição?

Já você nos diz: entra, come um risoto, toma uma cerveja, mas tem que lavar a louça. E ficamos ali o tempo que a gente quiser, ouvindo e contando histórias – conhecendo outras pessoas que acabam se tornando protagonistas do seu Carnaval, do seu cotidiano performado. A sensação que tive era a de que eu estava em uma festa estranha com gente esquisita, partilhando memórias e afetos.

Mas me veio à cabeça: qual o sentido político disso que você nos propõe? Porque é comum a gente ver uma performance reverberar como fato inusitado, notícia, mas que não gera uma reflexão mais profunda sobre o sentido do que nos é proposto. Quem me falou disso numa conversa certa vez foi o mineiro André Carreira, do grupo Experiência Subterrânea (SC). É político sair da sala de espetáculo. É político questionar as cênicas, as galerias, as curadorias, os museus, as instituições de arte e suas burocracias. Tudo de uma forma leve, desavergonhada.

Queria te indicar o espetáculo Los Autores Materiales do grupo colombiano La Maldita Vanidad, que se apresenta em um apartamento junto ao público transitando na casa. Também te indico o espetáculo Dança Delivery, da coreógrafa paulistana Cláudia Müller, que libera um telefone durante o dia para receber ligações e vai dançar à noite na casa das pessoas que solicitam. Cada casa é responsável por mobilizar seu público. E a gente assiste dentro de casa um espetáculo de dança. Bacana, né?

E aí lanço ao Cena uma provocação desde que vi a programação oficial: que tal mais intercâmbio de linguagens da cena contemporânea? Porque acredito que, numa programação com 22 obras, poderíamos ver mais performances, mais circo, mais dança. Mais espetáculos de teatro que dialogam com outras linguagens. Equilibrar linguagens, potencializar interdisciplinaridades. Afinal, essa tem sido uma das principais características das artes na contemporaneidade.

Conversemos, partilhemos.

Danilo.

Crítica feita a convite do Festival Cena Contemporânea 2017.


Nenhum comentário: