quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nudez e Arte no Brasil: Escancarar verdades contra a manutenção de mentiras

O Cena Contemporânea 2017: Festival Internacional de Teatro de Brasília trouxe obras que questionam noções de “nudez” e “atentado ao pudor” em um contexto político conservador
















Por Danilo Castro*

Ainda que o Brasil seja conhecido no mundo como um país que ostenta corpos nus, grande parte da população permanece extremamente conservadora em muitos aspectos. E os reflexos dessa repressão na produção artística do país têm sido comum nos últimos tempos com apoio do Governo. Em protesto, o Cena Contemporânea 2017: Festival Internacional de Teatro, realizado em agosto deste ano, realizou uma foto de nu artístico coletiva a céu aberto, em frente ao Museu Nacional da República.

Performar é gerar uma ruptura política no cotidiano e desviá-lo para a poesia, gerar crise para levar à reflexão. O artista Maikon K, no dia 15 de julho de 2017, foi bruscamente impedido de realizar sua performance “DNA de DAN”. A polícia do Governo de Brasília o levou preso, alegando “atentado ao pudor” porque ele estava nu, em performance, dentro de uma bolha gigante de plástico. 

Maikon tinha autorização do Museu para estar ali e se apresentava na mostra Sesc Palco Giratório, uma das mais importantes mostras de Artes Cênicas do país. Ainda assim, a polícia destruiu seu cenário e o levou preso. Um mês depois, Diego Ponce de Leon, coordenador pedagógico do Cena Contemporânea 2017, idealizou e produziu a foto com 155 pessoas nuas. Ao centro, o artista Maikon K foi convidado para a fotoperformance no mesmo local onde a censura do seu trabalho aconteceu. O clique do fotógrafo Kazuo Okubo expõe uma relação entre as pessoas nuas e a arquitetura de Oscar Niemeyer, que assina os projetos arquitetônicos da capital brasileira. 

















O crítico literário Mário Pedrosa diz: “Em época de crise, fique do lado do artista”. A frase está estampada na entrada do Museu, na exposição Não Matarás, que relembra a ditadura militar no Brasil (1964-1989). A arte antecipa e evidencia questões que a sociedade ainda não conseguiu discutir ou não se sensibilizou para tal. A truculência da polícia é também uma performance, mas de hipocrisia, fragilidade e despreparo. A polícia continua com seu analfabetismo poético em nome da “ordem do Estado” ou pela simples manutenção de seu suposto poder.

O erótico e o pornográfico estão na performance nua? Ou na cabeça de quem vê? Dessa vez, a polícia não foi capaz de prender 155 pessoas. Liberdade de expressão é direito previsto na Constituição da República Federativa do Brasil (1888). Bem como atentado ao pudor está no Código Penal Brasileiro (1940). Como definir limites do que é certo ou errado diante dos nossos marcos legais, da arte e dos nossos corpos? Num país que pende cada vez mais para o fascismo, a arte ficará sempre de escanteio, ainda que ela seja essencial para gerar a crítica da crise.

Em julho de 2016, a então presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, sofreu impeachment após um golpe político que feriu a Constituição de 1988. A partir disso, a supremacia deste documento legal perdeu força, tanto que outros direitos constitucionais estão sendo violados a cada dia. A arte, nesse contexto, é disputa de poder, de interpretações, de confrontos. É um lugar de luta. O festival Cena Contemporânea 2017, ao propor esse nu artístico coletivo, resiste contra o conservadorismo e o enrijecimento que querem da arte no Brasil.














Essa repressão é legitimada por um parlamento e um presidente que evocam retrocessos, com interesses empresariais sobre os bens públicos. Para eles, os artistas precisam ser silenciados, tanto que a primeira medida do governo golpista de Michel Temer foi extinguir o Ministério da Cultura. Mesmo com uma grande parte da população sem memória, ignorante e burguesa, a liberdade resistirá. Estamos o tempo todo em performance. Uns para escancarar verdades. Outros pela manutenção de mentiras.

*Danilo Castro é ator, jornalista e crítico em Artes Cênicas. Escreve, entre outros, em blog
próprio (http://odanilocastro.blogspot.com.br)


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