quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Eu era gay lixo sob pele de cordeiro

Foto: Medium.com
Mesmo no universo gay, o machismo nosso de cada dia faz questão de nos violar, de nos impor regras, de nos submeter a padrões que oprimem nossas liberdades. Entre nós, de forma velada ou explícita, cobramos o “comportamento de homem” nas nossas relações afetivas. Ainda que muitas vezes a gente negue, as indústrias pornô, dos galãs de cinema e TV, os gogoboys, a família, os colegas da escola, os professores e tantos outros segmentos e pessoas nos contaminam de normas do que é ser homem - sobrepondo, consequentemente, gays machos/másculos diante dos gays afeminados. Isso já sabemos.

É uma luta diária para descontruirmos inclusive como se moldam os nossos desejos. O que sou eu de verdade e o que foi imposto a mim? Quando falamos de relações entre homens gays, óbvio que os padrões de boy lixo também estão infiltrados. E pior: muitas vezes nós sequer temos noção do mal que causamos. Comigo foi assim.  

Nutri relações simultâneas, desenvolvi afetos, conheci amigos e famílias de cada relação. Penetrei como água em esponja na vida de caras bacanas que fui me envolvendo sem me dar conta da avalanche que estava por vir. Ainda que eu tivesse amigas feministas que me alertassem desse comportamento, insisti – eu sou legal, eu milito contra as opressões, não podia estar fazendo mal. O maior erro é que não fui capaz de assumir namoro com nenhum deles, muito menos de propor uma relação poliamorosa ou mesmo aberta, que seria mais honesto diante dos meus desejos. Todos eram namorados, mas sem contrato de namoro. A autocrítica demorou pra fazer efeito.

Organizava agendas cuidadosamente e me resguardava ao meu direito de dizer para mim mesmo: ué, não somos namorados, não estou fazendo nada de errado, não estou obrigando-os a ficarem comigo, todos estamos cientes de que podemos ficar com quem a gente quiser. Ledo engano.

Esse comportamento, que também pode ser considerado assédio e abuso, é muito comum nas relações heterossexuais e, como somos homens, naturalmente o machismo transparece e os boys lixos aparecem. Nem sempre o gay lixo é aquele que escrotiza escancaradamente, que é grosso com você, que te chantageia. Às vezes eles são dóceis garotos: calmos, de esquerda, carinhosos, educados.

E como resolver? Honestidade em primeiro plano. Se não houver perspectivas a longo prazo, não há porque nutrir a relação por meses, anos. Bom sexo, beleza e boa companhia não podem ser argumentos para a manutenção dessa desigualdade. É se aproveitar do sentimento do outro diante dos seus privilégios em ser amado. Se houver dúvidas do seu gostar, que tal ser franco com quem você está junto? Nem sempre é simples, mas QUE TAL TENTAR?

Ok, não foi calculado. Não planejei meticulosamente como lidar com as relações ao mesmo tempo – ainda que no fundo eu me sentisse o máximo por ter três homens lindos e legais comigo. Fui vivendo, me sentindo livre, discordando do Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Eu? Ué, mas não estou obrigando ninguém a estar comigo, já disse! Acabei metendo os pés pelas mãos, sem a noção do quanto eu iria abalar pessoas tão queridas, deixá-las tão desestabilizadas. O amor faz as pessoas ficarem vulneráveis.

Não dá pra dizer que era simples resolver. Até porque eu não enxergava o problema. Porém, o desafio a nós, gays, é fugir desse padrão machista que se evidencia quando estamos privilegiados. Precisamos colocar fim quando não temos grandes perspectivas com quem a gente se relaciona – mas nem isso eu conseguia identificar e fui levando, egocêntrico, sem me colocar no lugar do outro. Bendita Alteridade, venha a nós o Vosso Reino. Ser esse gay lixo sob pele de cordeiro foi como beber, dirigir e provocar um acidente. Não saí de casa para matar alguém. Porém, coloquei outras pessoas diante do risco - preciso assumir os males que provoquei para não repeti-los mais.


Danilo Castro

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