sexta-feira, 24 de agosto de 2018

[Crítica] Teatro manauara contra a perversidade do fundamentalismo cristão

Foto: Rômulo Juracy


Brasília, 22 de agosto de 2018.

Manauaras,

Quem assistiu vocês no espetáculo “Tartufo-me” presenciou uma noite histórica no Teatro dos Bancários, durante o segundo dia do Festival Cena Contemporânea 2018. Nós, público, fizemos parte do dia em que, pela primeira vez, uma obra cênica de Manaus (AM) abriu espaço num evento que carrega 19 edições na trajetória e centenas de trabalhos de várias partes do mundo. O sentido político da presença de vocês nesse festival só mostra o quanto é necessário que os gestores de políticas públicas e de grandes projetos culturais adotem como princípio a descentralização e um olhar mais panorâmico sobre cena brasileira, abrindo espaço para as obras que vêm de margens invisibilizadas.

Por muito tempo, no Brasil, cultura foi sendo tratada como política de balcão. Quem era “amigo do rei”, recebia financiamento. Como os polos econômicos estavam no Sudesde, obviamente que as artes nesse território plurificaram devido aos inúmeros incentivos (que ainda não são suficientes), mas que continuam sendo maiores que em outras áreas do país. Os Pontos de Cultura, criados em 2004, finalmente pulverizaram o orçamento da cultura para áreas que até então estavam às cegas, resistindo com a força de suas lutas e manifestações culturais. Ainda assim, não é o suficiente para abarcar a demanda de artistas sedentos por circulação e aprendizado. E de uma população que carece de fruição artística.

E como é contemporânea a ressignificação que vocês fazem da obra homônima do dramaturgo e encenador francês Molière (1622-1673), escrita em 1664, onde a sátira sobre o fundamentalismo cristão fez o Rei Luis XIV censurar o trabalho durante a estreia da encenação original. Não estamos no século XV, mas estamos num momento de ascensão voraz do ódio e do fascismo a ponto de termos dois Tartufos candidados à presidência, capazes de irem aos debates televisionados com a bíblia na mão – mesmo que vivamos em uma nação laica. Um deles têm possibilidades reais de se tornar presidente do país, num projeto de poder autoritário, militarista, machista, misógino, LGBTfóbico, racista e perverso.

Portanto, manauaras, a obra de vocês é urgente, pungente, cheia de vigor, mesmo que a plástica das cenas ainda esteja imatura, mesmo que o didatismo de suas escolhas de encenação possam gerar um olhar enviesado por parte de um público mais especializado ou mesmo que ainda haja a necessidade de refinamento das nuances do trabalho de ator do solista Dimas Mendonça, que é capaz de emanar uma potência e uma presencialidade que muitos artistas buscam, ao mesmo tempo em que essa energia toda aparece muitas vezes dissipada.

Focar em questões poéticas e estéticas é pouco. Há um propósito além das suas escolhas artísticas gritando forte o desejo de vocês de estarem no centro, de gritarem abertamente a revolta pelo caos social que chegamos. Figuras ditatoriais, por meio de ideologias como a Teologia da Progressão, de Edir Macedo, onde quem dá mais dinheiro teria mais chance de ter um lugar melhor no céu, estão ocupando os espaços que perdemos diante da descrença com a política que a crise trouxe. Portanto, saudemos o Cena pela amplitude do olhar ao Amazonas nesta edição. Saudemos vocês por toda fortaleza.

Seria incrível se os Tartufos tivessem ficado no passado de Molière ou que fossem apenas uma ficção. Infelizmente, eles são reais, perigosos e vêm se transformando em entidades fakes, que se apropriam da vulnerabilidade e da fé alheia para lucrar instigando violências físicas e simbólicas. E a cena de vocês escancara tudo isso irradiando a luta do teatro que existe e resiste no Amazonas, em Roraima, no Amapá, no Pará, em Tocantins, em Rondônia e no Acre. Vocês estão no Cena Contemporânea 2018 para trazer o confronto das águas que correm no seu estado de origem e nos ensinar sobre aquilo que desconhecemos ou, quem sabe, pouco nos esforçamos para enxergar diante dos privilégios de quem está na capital do país.

Avante!

Do fortalezense,

Danilo.

*Danilo Castro é ator, graduado em Artes Cênicas (IFCE); jornalista, graduado em Comunicação (UFC) e mestre em Artes cênicas (UnB).

Crítica feita a convite do 19º Festival Internacional de Teatro de Brasília - Cena Contemporânea 2018

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